Um Fruto chamado Brasil

P1000619Quando perguntamos a qualquer pessoa na rua se tem o costume de participar das questões ligadas a sua cidade, a resposta mais comum e quase unânime é: sim, eu voto!

Esta tem sido a resposta majoritária para a equação participação e democracia. Na verdade, a grande maioria da população brasileira não exerce nenhum tipo de participação, somente o voto.
Além de pouco caldo de cidadania ativa, um estudo do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) mostra que os brasileiros confiam pouco na democracia: entre 18 países pesquisados, o Brasil ficou em 15º lugar no nível da adesão de sua população aos princípios democráticos. Nesse estudo, 54,7% dos entrevistados apoiaria um governo autoritário se ele resolvesse problemas econômicos e sociais. (Relatório Democracia na América Latina 2004)

É notório que precisamos avançar na consolidação da democracia em nosso país.

Precisamos equilibrar essa balança: de um lado, a democracia representativa, aquela que delega o poder aos eleitos e do outro a democracia participativa, aquela que inclui a voz e as demandas da população de forma direta. Não se trata de um caminho ou outro e sim como combinar as duas realidades dentro de um mesmo processo democrático.

O hemisfério sul, principalmente, tem sido reconhecido por práticas que desconstroem a ordem de delegar e transmitir o poder como a única forma de governar. O Brasil é reconhecido pelos orçamentos participativos, pelas conferências temáticas e pelos conselhos, realidades em todas as esferas do governo.

No entanto, ainda há muito para se fazer. A participação juvenil, assim como a de qualquer cidadão, deve ser entendida como um direito expresso no 1º artigo da Constituição brasileira. E como tal, deve ser garantida e estar presente de forma transversal no debate e desenvolvimento das políticas públicas de juventude de nosso país.

Hoje, temos um Conselho Nacional de Juventude, com a participação majoritária da sociedade civil e movimentos juvenis, cerca de 30% dos Estados já têm Conselhos de Juventude e ainda conhecemos experiências de sucesso em municípios.

No final de abril de 2008, em Brasília, se encerrou o processo da 1º Conferência Nacional de Juventude, com a participação de mais de 400 mil jovens em todas as etapas, e votação de 22 propostas prioritárias dentro das mais de 4.500 resoluções debatidas.

São experiências, que hoje, estão se tornando realidades impulsionadas por um potencial da juventude em se organizar, propor e atuar nas questões públicas. Nesse ponto outra balança precisa ser equilibrada: por um lado, segundo pesquisa realizada em 2003 pelo Instituto Cidadania, 69% dos jovens acham que a política influencia sua vida. Mas apenas 43% consideram ter alguma influência na política.

O Projeto Frutos do Brasil reconhece esse potencial a ser explorado. Selecionou histórias de grupos de jovens que mostram suas demandas, seus desafios e formas de participação em suas regiões.

Esses jovens fazem parte de um grupo grande, quase 22% de toda a população juvenil. Somando os jovens que fazem e aqueles que querem fazer alguma coisa pela sua comunidade, estamos falando de mais de 7 milhões de pessoas. E ainda 57% dos jovens têm interesse e disponibilidade para se encontrar com outros jovens e dialogar sobre temas relativos à juventude brasileira. (Ibase/Polis, 2005).

Além das experiências que se proliferaram por todos os cantos do país, o Projeto Frutos do Brasil reconhece a criatividade, inovação e diversidade nas formas de participação. São formas novas de organização, de expressão, de sintetizar valores de grupos e sobretudo de propor e contribuir com mudanças. A dança, a arte, a literatura, a história, a música, deixaram de ser somente campos de conhecimentos e hoje para muitos jovens, são os pilares de sua atuação. Mais do que canais e formas de expressão, são a identidade e a ligação de pertencimento à sua região, grupos e comunidade.

A juventude está deixando um legado não somente pela quantidade expressiva de experiências de mobilização e participação. Suas vivências nos apontam para novos acordos sociais. Como diz Boaventura dos Santos, “precisamos mudar a gramática social”.

Devemos fortalecer essas experiências democráticas visando à construção de uma sociedade participativa que seja capaz de promover uma vida digna para todos.

Luciana Martinelli
Co-fundadora da Aracati – Agência de Mobilização Social

Anúncios