Jongo da Serrinha

Entre a cruz e a espada
Ponto de Cultura Escola de Jongo
Rio de Janeiro, RJ

Por Leonardo Trielli

A violência é a maior vilã do Jongo da Serrinha. E ela não tem nome, endereço, nem lado. Mas ainda assim, o trabalho do Jongo da Serrinha não para.

2ª feira, 16 de março

3792221320_ec4e59a2d5_oNo Rio, o clima é diferente. Ele tira a gente da cama e dá vontade de logo sair e ver a cidade mais perto. Para um paulista, passar rente a montanhas e saber que o Atlântico é logo ali ao lado é um alento. Mesmo dentro do ônibus. Mesmo dentro do trem. Da casa da minha tia, na Tijuca, local onde eu estou (muito bem) hospedado, chegar até o Grupo Cultural Jongo da Serrinha é uma questão de poucas estações de metrô e trem e três ou quatro pontos de ônibus. Como é o primeiro dia de visita, olho atento para as ruas. Afinal, não quero me perder.

– Luiza? Sou eu! Eu estou na frente de uma agência do Itaú…

– Ih, Léo! Você passou muito. Tá no mercadão de Madureira! Procura o colégio Carmela Dutra. A rua é bem na frente!

Adoro ouvir o carioca falando. Se a frase tem um erre ou um xis, então, melhor ainda. Quinze minutos a pé e eu chego na Rua Dr. Joviniano, no bairro de Madureira.

Dados do Censo 2000 do IBGE indicam que há mais de 370 mil habitantes no bairro de Madureira, local onde fica situado o Morro da Serrinha, que abriga o Jongo. Ainda segunda o IBGE, o número de pessoas que habitam em aglomerados subnormais (um eufemismo usado para designar “favelas”), é de mais de 45 mil habitantes.

A casa é simples, com muro pintado de verde-água, o logotipo em verde e branco do Jongo da Serrinha e, ao lado, do Instituto C&A. Ali é onde funciona a biblioteca, a videoteca e a brinquedoteca do Jongo. Um espaço de aproximadamente 60 m² se divide em uma sala com ar-condicionado, televisão, DVD, vídeo-cassete, e prateleiras com livros e brinquedos e almofadas espalhadas pelo chão; uma recepção, com as memórias fotográficas do Jongo na parede e um computador em cima de uma escrivaninha; um pequeno cômodo que serve como almoxarifado; um banheiro e uma cozinha.

Nesta casa, o Grupo Cultural Jongo da Serrinha executa as suas atividades desde dezembro de 2008. Naquele mês, a sede verdadeira deles foi destruída por conta da guerra entre o tráfico do morro da Serrinha e a polícia militar do Rio de Janeiro. “Nosso trabalho agora é não deixar que as crianças abandonem as atividades. Algumas mães já não deixam os meninos virem pra cá, por medo da violência”, desabafa Maria Luiza Marmelo, a mulher que me ajudou a chegar lá pelo telefone.

Na casa sou recebido por ela, pelo professor de cultura popular, Renato Barreto, e pela jovem Érika Carvalho. Ele tenta ligar uma câmera de vídeo recém adquirida na TV. Quer mostrar o take que fez da Érika, que foi para Atibaia, SP no primeiro encontro do Projeto Frutos do Brasil, falando sobre a sua experiência como mobilizadora. Enquanto ele briga com cabos, fios e os dois aparelhos, a jovem e Luiza me contam sobre o Plano de Mobilização apresentado pelo Jongo para a equipe do Frutos.

A preocupação comigo é visível. Assim que eu cheguei, as duas me perguntaram sobre o almoço. Uma moça que mora ali perto prepara umas quentinhas, que elas sempre pedem. É bom e barato. “Você não se importa, né?” elas perguntam, preocupadas. Claro que não. Eu peço pra Luiza mandar preparar três, das grandes, uma pra cada um de nós.

Érika logo diz que eu preciso conhecer a Tia Maria. Mais tarde, pela hora do almoço, nós passaremos por lá. A casa dela fica alguns metros acima, na mesma rua da casa onde nós estamos. Eu também quero conhecer a sede maior. Mas a Érika não deixa.

– Subir o morro é arriscado pra quem mora aqui. Pra quem não mora, então, nem se fala. É melhor ficarmos onde estamos.

A Érika me falou que nunca sai de casa depois das 16h. E se está na rua depois deste horário, é melhor esperar pra voltar no dia seguinte. A situação toda me deixa angustiado. Me faz pensar que ali é um terreno fértil pra demagogia florescer. O professor Renato mais tarde desabafa. “Eu sempre tive o discurso do enfrentamento. Mas o dia que eu subi, vi que é impossível.”

Se não é possível enfrentar poderes armados, resistir é possível. Tudo o que eu li a respeito do Jongo, falava sobre “cultura de resistência”. É assim que os acadêmicos enxergam o Jongo. “O que será que a Tia Maria, história viva dessa tradição, tem para falar a respeito?” eu penso.

São 13h e Maria Luiza tem que ir para dar aulas em outras escolas públicas. Ficamos eu, a Érika e o Renato. Enquanto o Renato ministra uma oficina para seis crianças, de 6 a 13 anos, a Érika me chama para conhecer a Tia Maria do Jongo.

Não se trata apenas de uma residência. O lugar onde ela mora é uma referência para o povo da comunidade da Serrinha. Com jeito de avó, ela recebe crianças, jovens e adultos, sempre com serenidade e bom humor. Érika me conta que aquele lugar quase mágico está sempre cheio de crianças, dançando o Jongo ou ouvindo as histórias contadas pela Tia Maria.

Assim que se entra pelo portão, folhagens de árvores baixas saltam à altura dos olhos. Uma pequena escada dá acesso ao quintal que, dito e feito, é visitado por três crianças, que fogem de vergonha ao nos verem. A porta se abre e eis que ela aparece.

Maria de Lourdes Mendes, Tia Maria, nos recebe na sala de sua casa. Ela me conta muito rapidamente sobre sua história de vida. Casou-se em 1942. Dança Jongo desde criança. E desmistifica alguns conceitos, interrompendo a minha pergunta no meio:

– Tia Maria, qual o papel do Jongo na comunidade, já que historicamente ele é uma cultura de resistência e…

– Que resistência que nada, meu filho! O Jongo é pra gente dançar e se divertir! O papel dele sempre foi esse.

Envergonhado, sou salvo pelo aviso de que o almoço chegou. Carré (bisteca de porco, para os paulistas), arroz, feijão preto e salada, acompanhado de xarope de guaraná que a Tia Maria pediu pra Érika preparar na hora. Enquanto vou saboreando a minha bisteca, Tia Maria me fala sobre a escola de samba Império Serrano, da qual ela também faz parte da história. “O Jongo, então, é pai do samba, não é, Tia Maria?”

– Se for parente, ele é irmão. Pai não é. Eu ouvia a minha mãe cantar samba e jongo. Não vi o samba nascer. Pra mim veio tudo junto.

Tia Maria tem enorme talento para falar do passado. Não à toa, é Mestre Griô. Posso ficar a tarde toda ouvindo suas histórias. Mas a Érika avisa que estes dias não têm sido seguros para ficar na comunidade até tarde. “Às vezes nosso dia tem cinco horas. Dá duas da tarde, é melhor se recolher”, ela me conta. Então, aproveito a companhia do professor Renato e vou com ele pro ponto de ônibus. Olho no relógio e são quinze e pouco. E o dia na Serrinha terminou.

3ª feira, 17 de março

3791417419_813bd234be_oPelo visto, ontem todo mundo sabia que a comunidade ia sofrer algum tipo de violência. O vazio do dia anterior contrastou com o entra-e-sai de gente, hoje.

A Tia Maria já está na recepção quando eu chego. Junto com a Érika, providenciam o almoço. Aproveito pra conhecer melhor a história da Maria Luiza. Não é surpresa descobrir que a vida dela é inteiramente dedicada ao Jongo e à música. Enquanto conversamos, a casa fica aberta e não para de entrar gente. Primeiro, chegam a Joyce e o Jonathan. Os dois são irmãos e sempre aparecem aqui. Impressiona o respeito que as crianças têm pelas pessoas do Jongo da Serrinha. “Todos os dias os dois passam aqui pra me dar um beijo e ‘receber a bênção’ antes de ir à escola”, me conta Luiza, que pede a Joyce que chame sua mãe para visitá-la na biblioteca. Ela quer pedir para que a menina volte a freqüentar pelo menos um dia por semana as aulas de jongo.

Fico curioso em saber da Tia Maria que tipo de história as crianças mais querem ouvir dela. Ela me diz que é a do “oi do boi”.

– ‘Oi’ é cumprimento de boi! Quando eu era menina aprendi isso no susto!

E toca a dar risada do episódio em que foi tirar a prova de que o gado seguia quem dissesse “oi”. É hora do almoço e enquanto algumas crianças ouvem as histórias da Tia Maria, chegam a Marcelly, de 15 anos, e o Fábio, 14.

Marcelly Azevedo nasceu na comunidade. Entrou no grupo há 3 anos porque tinha curiosidade em conhecer a cultura. “Antes eu achava que Jongo era macumba”, confessa a jovem. Quando viu que não era nada disso, entrou e não saiu mais. “Vou levar o Jongo pra frente”, finaliza. O Fábio, por sua vez, foi atraído pelo som. Literalmente. “De casa dava pra ouvir o toque dos tambores. Isso me deixou curioso”, lembra o garoto, que também participa das aulas de canto, dança afro e capoeira. “Pra mim é importante porque eu tenho oportunidade de conhecer lugares diferentes, a história dos negros, a dança”, diz ele.

Pelo visto, hoje vai ser um dia bom pra papear aqui no Jongo. Por ser começo de ano letivo, as atividades ainda não estão definidas e começam mais pro final de março e começo de abril. Mesmo assim, o Jongo não fica parado. Um pouco depois do almoço, chega a mãe de Joyce, a garota que passou de manhã. Vem reclamando que “corta um dobrado” pela menina e ela não quer nada da vida. Não é a primeira pessoa que entra na sala para desabafar e compartilhar os problemas da vida cotidiana. Tem sido assim durante o dia todo. Vejo que o Jongo da Serrinha tem mais um papel nessa comunidade, que vai além da preservação da cultura: um papel psico-social, uma “área de escape” de função terapêutica.

Marcelly e Fábio conversam na sala de leitura. Não percebo que eles entram no almoxarifado e tomo um susto quando começo a ouvir o batuque de tambores vindos de lá.

– Vem pra sala! Quero ver um show ao vivo e exclusivo!

Tenho o privilégio de ter uma amostra do Jongo só pra mim. Maria Luiza abre a boca pra cantar e me surpreende com a voz que desprende da sua garganta. Eu sei que ela é cantora, mas é sempre uma boa surpresa ouvir uma voz pela primeira vez.

O Jongo é tão envolvente que o tempo passou e ninguém percebeu. Maria Luiza tem que sair correndo porque à noite ela vai se apresentar com o grupo. Tive outro privilégio. Desta vez o de ser convidado pessoalmente pela Tia Maria para assistir ao show, que acontecerá no centro do Rio. Sobramos eu, Érika, Mercelly e Fábio. Mas o dia já quase terminava. E novamente por segurança, vou embora na companhia de alguém, desta vez “de carona” com a Maria Luiza, que reforça o convite para a apresentação. Hoje eu consegui ir mais tarde. São quase 17h.

4ª feira, 18 de março

3792214992_66e97d17fd_oNão fui na apresentação. Cheguei na casa de minha tia ontem e fui trabalhar. Acabei ficando online até a madrugada e capotei na frente do computador. Acordei atrasado e saí correndo. Hoje é só uma despedida porque à tarde eu sigo para Cataguases, em Minas Gerais, para outra visita.

Hoje a casa está cheia. Há uma reunião séria, com todas as pessoas envolvidas no grupo, desde a coordenação do Ponto de Cultura, até os diretores. O curioso é que a relação entre todos é praticamente familiar. O Jongo da Serrinha tem essa característica. Por ter uma cultura comunitária, as pessoas se conhecem há muito tempo, em alguns casos, desde o berço.

Sou chamado para presenciar a reunião. Elas discutem a sustentabilidade da organização e, principalmente, como contornar a violência na conjuntura atual. “Elas”, pois só havia eu de homem dentro da sala. Outra característica peculiar do Jongo da Serrinha é esta: quase todas as pessoas que tomam frente da organização são mulheres. A única exceção é Lúcio Enrico Attia, coordenador da Escola de Jongo.

Já passou do meio-dia e eu ainda estou aqui. Tenho que correr! Ainda não comprei a passagem de ônibus, não sei quanto tempo demora para chegar na rodoviária e o último carro sai às 17h e pouco. É hora da despedida. O carinho é enorme. A sensação é a de que eu nasci ali, com eles. O acolhimento é total. Termina a minha primeira visita. Volto pra casa mais enriquecido. Reflito sobre o Projeto Frutos do Brasil. Ali, uma semente foi plantada. E, mesmo com o clima desfavorável, estes Frutos têm tudo para crescer.

{ Escola de Jongo da Serrinha }

Rua Balaiada, s/n°, Madureira – Rio de Janeiro, RJ
www.jongodaserrinha.org.br

Leia aqui os textos produzidos pelo pessoal do Jongo da Serrinha para a Revista Frutos do Brasil:

Por Érika Carvalho

Meu nome é Érika Silva de Carvalho, tenho 24 anos e estou no Jongo da Serrinha há 9 anos. Agora, vou contar como foi a minha chegada ao Jongo. Hoje, eu procuro fazer o mesmo com os jovens da minha comunidade. Sempre que posso, converso com eles e procuro dar todo o incentivo e ajuda possível. Infelizmente, nem todos seguem meus conselhos, mas mesmo assim, eu já me sinto vitoriosa, pois já consegui com que pelo menos alguns desses jovens seguissem meus passos. Meu objetivo principal hoje na comunidade é manter a tradição do jongo ou pelo menos tentar preservar esta cultura, tão bonita e tão importante.

Minha mãe me inscreveu na escolinha do Jongo sem me comunicar, no início. Eu não queria participar de jeito nenhum, o tempo foi passando e eu fui até lá pra conhecer. Chegando lá, logo me interessei pela aula de dança de salão e depois de um tempo, resolvi conhecer a dança afro e ao decorrer do tempo fui me interessando pela dança de jongo. A cada oficina que eu participava sempre me sobressaía melhor do que os meus amigos. O tempo foi passando, os professores passaram a me observar e resolveram me dar mais oportunidade. Em pouco tempo eu era uma das oficineiras da escolinha, ou seja, dava aula no lugar dos profesores enquanto era observada por todos.

Em um ano, já estava dando aula fora da escolinha. A Valéria Monã me deu um grande voto de confiança. Foi ela, juntamente com a Luiza Marmelo, Lazir Sinval e Bruno Tetê que me projetaram para o mundo da dança.

O “Frutos do Brasil” foi uma das melhores coisas que aconteceram na minha vida, pois durante o encontro em Atibaia, SP, eu conheci pessoas de várias culturas e de diferentes lugares do Brasil, fiz algumas amizades e aprendi diversas coisas boas. A recepção de vocês para conosco foi maravilhosa, fiquei muito contente com tudo. Agradeço todo o carinho e atenção que vocês tiveram com a gente.

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