Grupo Harém

Afinal, fazer cultura também é um ato político
Ponto de Cultura Nos Trilhos do Teatro
Teresina, PI

Por Fábio Munhoz

FOTO 2 - Programação do Espaço TrilhosQuando vamos procurar pelas origens da democracia, lá na antiga Grécia, percebemos que existe uma clara relação entre as apresentações no teatro e as reuniões nas assembléias. Podemos começar pela localização e pela configuração destes espaços na arquitetura da cidade: em ambos os casos buscava-se facilitar um processo de externalização e de interação com o público. Assim, se no teatro os atores de então utilizavam do recurso das máscaras para dar vida a seus papéis e conquistar a aprovação da platéia, nas assembléias, os oradores utilizavam da retórica para representar sua face pública e conseguir o coro positivo dos seus pares. O arquétipo do espetáculo [do latim spectaculu – aquilo que chama a atenção, atrai, prende o olhar] está presente nas duas manifestações, a artística e a política.

Ainda não sabia, mas os dias que passaria com o pessoal do Grupo Harém de Teatro, no Ponto de Cultura nos Trilhos do Teatro, trariam um claro exemplo de como um espaço de manifestação artística pode tão bem acolher a participação política de jovens que idealizam um mundo melhor.

Malas prontas. Destino: Teresina, Piauí. Terra da ‘cajuína cristalina’ cantada por Caetano Veloso. Terra quente, muito quente, muito calor. E mesmo com a sensação de estar com o corpo em processo de liquefação, meus amigos teresinenses me consolavam: “Tu deu foi sorte! Tá frio!Quente mesmo é na época do bê-erre-o-bró!” (setemBRO, outuBRO, novemBRO, dezemBRO).

Única capital nordestina que não está localizada no litoral. Fica no interior do estado, entre os rios Poti e Parnaíba. Rios que ali mesmo, quase na hora de se despedirem de Teresina, resolvem juntar suas águas e partir em direção ao oceano Atlântico.

Teresina, capital do Piauí e que fica a uma ponte da cidade de Timon, já no Maranhão. O nome da cidade, fundada em 1822, é uma homenagem à Imperatriz Teresa Cristina. Cidade que nem sempre foi a capital do estado. Antes a capital era Oeiras. Porém, em 1852, o então presidente da província, conselheiro José Antônio Saraiva, transformou Teresina em capital. Oficialmente, a fundação da cidade e sua posterior transformação em capital surgiu de uma decisão político-estratégica. Mas até hoje o povo diz que na verdade o que o Conselheiro Saraiva quis mesmo foi ficar mais perto de um ‘rabo-de-saia’ que tinha ido morar para aquelas bandas.

Fofocas históricas à parte e cinco horas de vôo depois, com direito a uma pingadinha rápida em Fortaleza, o avião inicia o procedimento de descida em Teresina. A primeira visão pela janela é a de ruas que se cruzam de um modo calculado, formando quadras simétricas, iluminadas pelas luzes amareladas que de cima dos postes revelam um quadriculado perfeito, algumas vezes rasgado por largas avenidas. Tal meticulosidade tem uma explicação: a cidade foi a primeira capital planejada do país. São quase duas da manhã. Apesar do horário, logo ao desembarcar do avião sinto o abafado “frescor” da madrugada. Faz muito calor. Logo mais, às dez da manhã tem início o primeiro Festival da Juventude, resultado do plano de mobilização do Ponto de Cultura nos Trilhos do Teatro, desenvolvido a partir do encontro de formação do Frutos do Brasil em Salvador.

O objetivo do festival é o de estabelecer um debate entre organizações de participação juvenil junto com instâncias governamentais e da sociedade civil sobre temas como cultura, educação, trabalho, geração de renda, sexualidade, meio ambiente. Tudo isso permeado por oficinas e apresentações culturais, reunindo, inclusive, outros Pontos de Cultura da cidade.

Sigo para o hotel. Estou com medo de perder a hora. Mas, não. Não perdi a hora, afinal. Na verdade, passei uma parte considerável do tempo tentando negociar um meio termo com o ar-condicionado do quarto do hotel. Enfim, quando cheguei em algo que me parecia confortável, o dia já havia clareado. Assim fica fácil não perder a hora.

O Espaço Trilhos, sede do Grupo Harém e do Ponto de Cultura, é um antigo galpão da RFFSA, o galpão 3, cuja função foi ressignificada. Parte de um complexo arquitetônico tombado pelo IPHAN, se antes ele servia para abrigar as cargas transportadas pelos trens da rede ferroviária, hoje abriga cultura. Os trilhos ainda estão lá, ao fundo dos galpões, onde hoje circula o metrô de Teresina.

Chego ao Espaço, ainda vazio. Pergunto a uma moça, sentada em uma das cadeiras, onde posso encontrar com Pellé e Leandra, nossos interlocutores com o Frutos do Brasil. Ela indica a sala que fica lá no alto, ao fim de uma escada caracol de metal. E lá encontro com Leandra. Também estão na sala o Ismael, do CUCA (Circuito Universitário de Cultura e Arte, da UNE), a Letícia e o Moisés, do Grupo Harém e a Tatiane, do Conselho Estadual de Juventude do Piauí. Enquanto conversamos e nos apresentamos, chega o Pellé, junto com o Airton, também do Grupo Harém. Lá embaixo, sob o escritório, na “sala dos computadores”, conheço a Lays. E na salinha, salinha mesmo, da Rádio Estação Gilberto Melo, está o Marcel, bastante concentrado com a programação da rádio. É então que descubro que a moça para a qual pedi informações quando cheguei é a Socorro, da Coordenadoria de Direitos Humanos e Juventude do Estado do Piauí.

Já há alguns jovens, em sua maioria participantes dos cursos do Ponto de Cultura, ocupando as cadeiras dispostas no espaço, todas voltadas para os tablados onde terão lugar aqueles que falarão durante a abertura do festival. Durante os três dias seguintes, passariam por ali representantes de entidades estudantis, órgãos de governos, organizações da sociedade civil. Seriam exibidos filmes, peças teatrais, mostras de dança e música. Manifestações artísticas e políticas buscando chamar a atenção para os temas desenvolvidos.

Leandra – “O Festival da Juventude surgiu a partir da provocação do Frutos do Brasil. E o principal objetivo foi o de dar visibilidade aos Pontos de Cultura. Mostrar para as instituições governamentais que trabalham a questão da juventude que os Pontos de Cultura existem e podem ser aproveitados e trabalhados para se discutir a juventude”.

Pellé – “Quando a gente voltou da nossa formação do Frutos do Brasil, lá em Salvador, a gente se reuniu com algumas entidades de juventude que já são parceiras aqui do Ponto de Cultura para discutir o que fazer e como fazer. E ficou decidido pelo festival e que os jovens e as entidades que participam aqui do Ponto é que realizariam esse evento. Nós, do Grupo Harém, por meio do Ponto de Cultura, daríamos toda a estrutura física e logística para eles, além do apoio com questões mais complicadas ou com alguma coisa que saísse errada. Toda a programação, os convites às autoridades, os apoios conquistados, foi tudo feito por eles. E eu acho que todo esse processo foi muito mais importante e interessante do que o festival em si”.

Leandra – “Quando a gente voltou de Salvador, o primeiro momento foi de conversar com as entidades governamentais e as de mobilização da juventude. Foi um debate muito produtivo. Todos se comprometeram a participar e dar sua colaboração na construção desse projeto. Uma dessas instituições foi a UNE, através do CUCA, o Circuito Universitário de Cultura e Arte, que foi o nosso braço direito. Acho que o projeto não teria chegado onde chegou se não fosse pela ajuda do Ismael [CUCA – PI] e do CUCA”.

Ismael – “Nós já estávamos trabalhando aqui com o pessoal do Ponto de Cultura, com o projeto da Caravana de Cultura, da UNE, e então o Pellé e a Leandra nos chamaram para participar da construção do projeto do Festival da Juventude com o propósito de se criar um espaço para se debater as políticas públicas para juventude através de um viés artístico e cultural. Levando todas estas discussões sobre juventude para dentro dos Pontos de Cultura, o que de alguma forma é aquilo que o CUCA também vem fazendo, uma vez que agora ele também é Pontão de Cultura. E acredito que o mais importante desse Festival, especificamente, seja o fato de que ele foi feito pela e para a juventude”.

Leandra – “Nosso projeto não termina aqui com o Festival da Juventude. Pelo contrário! O Festival é apenas o pontapé inicial. Nós queremos, por meio da cultura, levar a discussão política para outros espaços. Afinal, fazer cultura também é um ato político”.

Letícia – “Nós temos que fazer com que o jovem conheça o que nós temos em nosso Estado. Por exemplo, quem é que pode imaginar que no Piauí tem jazz?! Pois tem! Durante o Artes de Março. O pessoal pensa que aqui no nordeste é só o forró … mas não é”.

Chapadão [festival de música]
Piauí Pop
Piauí Music
Festival Internacional do Humor
Festival de Violeiros
Artes de Março
Festival de Verão
Festival de Inverno
Festival Lusófono
Festival de Corais
Festival de Monólogos
Festival da Uva
Festa da África
SALIPI – Salão do Livro do Piauí
Clube do Vinil
Boca da Noite [artistas locais que se apresentam todas as quarta-feiras]
Reisados, Festas dos Bois [Boi-Bumbá], Etc, etc, etc …

Leandra – “Aqui no Festival, durante o debate Cultura, Trabalho e Geração de Renda, a Aureni, do SEBRAE-PI, levantou uma questão muito interessante, que é a questão do diferencial. Por exemplo, o Ceará é conhecido pelo humor. Então, porque não dizer que Teresina é a capital da Cultura, Piauí o Estado da Cultura?”.

Lays – “Pois é, tem muita coisa aqui. O problema é que não é divulgado!”.

Pois é … E quantos de vocês que lêem estas páginas já ouviram falar na Batalha do Jenipapo? Procure lá no Google. Talvez a mais sangrenta batalha envolvendo partidários da independência brasileira e a resistência portuguesa.

No Brasil, todos, ou quase todos, que aprendem a história sobre nosso processo de independência, certamente lembram do ocorrido às margens do Riacho do Ipiranga, em 1822. Poucos, bem poucos, sabem que um dos decisivos passos para a consolidação desta independência e da atual extensão territorial brasileira ocorreu bem longe desse riacho, quase um ano depois, mas também às margens de um riacho, o Riacho do Jenipapo, no Piauí.

No município de Campo Maior há o Monumento à Batalha do Jenipapo, sobre o qual podemos encontrar algumas linhas de Carlos Drummond de Andrade …

“No cemitério de Batalhão os mortos do Jenipapo

Não sofrem chuva nem sol; o telheiro os protege

Asa imóvel na amplidão campeira.”

(Fazendeiro do Ar, 1954)

Letícia – “Aliás, finalmente a Batalha do Jenipapo vai ser incluída nos livros didáticos. Pra todo mundo saber que o Piauí também fez parte da luta pela independência do Brasil. Nós sabemos da nossa história, mas é importante que o país todo saiba disso também. Nós temos muita coisa … só que não é divulgado e daí muitas pessoas saem por aí dizendo bobagens …”.

Tem cultura, tem história e pré-história (no Parque Nacional de Sete Cidades, na Serra da Capivara), tem tradição, tem culinária. O surubim (peixe), a maria-isabel (arroz com carne seca), o capote (prato com galinha d’angola), a mangueira (tipo de cachaça), a cajuína (refrigerante artesanal feito com caju)… mangueira com cajuína… êita!

O Festival aconteceu de 19 a 21 de março, em 2009. Certamente não recebeu todo o público que se desejava, mas mesmo assim foi um sucesso ao apontar para a perspectiva de tomada dos espaços dos Pontos de Cultura pelos jovens que dele participam. Ou, como afirma Pellé, “pra mim foi muito gratificante e me deixa muito satisfeito ver o processo que eles próprios conduziram (…), ver que eles se empoderaram do espaço do Ponto de Cultura”.

De minha parte, sinto que me despeço de Teresina um pouquinho menos ignorante em relação à plural imensidão do meu país. Hora de levantar âncoras e alçar velas. Outros (aero)portos me esperam.

{ Grupo Harém de Teatro }
Av. Miguel Rosa s/nº, galpão 03, antiga Estação Ferroviária – Teresina, PI
www.grupoharemteatro.com.br

Leia aqui os textos produzidos pelo pessoal do Grupo Harém para a Revista Frutos do Brasil:

Por Leandra Lima

Qualquer trabalho em que nos comprometemos a é seguido de expectativas e inseguranças quanto à aceitação do público que se deseja atender. Com a juventude essa expectativa se multiplica, principalmente quando o objetivo do projeto está direcionado a debates com contesto político, uma vez que vivemos em uma sociedade que, em sua maioria, se sente a parte da política, reduzindo a sua participação social ao voto, ou seja, a eleição de seus representantes. Quando nos comprometemos a discutir políticas de juventude, torna-se necessário a criação de laços entre as mais diversas entidades de juventude como também ao próprio estado, que tem começado a entender a juventude como um ser social, contudo, fechados a calendários políticos, esquecem de tratar a juventude em seu sentido amplo, no todo, e não apenas àquele grupo seleto de “militantes”. A exemplo tem a juventude dos pontos de cultura. Uma juventude curiosa, aberta e atenta para novas experiências, mas que se perdem, em sua maioria, apenas nas formações profissionais, contudo, essa curiosidade é uma arma a ser usada pelos pontos de cultura para além da formação, gerar informação da juventude, como seres sócias e participantes, responsáveis pelo futuro do país, afinal, a cultura não deve ser tratada à parte da política, mas como mais uma peça fundamental para o funcionamento dessa maquina viva que é a sociedade. Fazer cultura é fazer política! E a partir desse ponto, dessa característica chamar a atenção das entidades juvenis e órgãos públicos de juventude para o potencial da juventude desses núcleos políticos, que são os pontos de cultura, abertos para discutir os mais diversos assuntos, como sexualidades, meio ambientes e por que não participação político-social, ou seja, assuntos que estão presente no dia-a-dia dos nossos jovens que também fazem parte dessa relação de trocas , que chamamos de sociedade.

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