FASAM

Eu corro atrás dos meus sonhos
Ponto de Cultura Para Todos os Especiais
Itu, SP

Por Fábio Munhoz

3788862628_c0c6e438a2_bAté agora temos apresentado a participação e mobilização de jovens em busca da melhoria de suas comunidades. Suas lutas e seus sonhos para uma vida melhor. Como, por exemplo, a mobilização da comunidade para a construção de uma casa de cultura. Ou o trabalho de produção e reprodução de obras audiovisuais com e para a comunidade. Os festivais e encontros das juventudes para debater políticas públicas. As lutas pela garantia de direitos. As lutas pela preservação das tradições ancestrais. Enfim, um boa mostra de belas histórias e fantásticas experiências de jovens que buscam construir um mundo melhor.
Fachada da FASAM

Esta próxima história, entretanto, apresenta algumas perspectivas um pouco diferentes sobre como um jovem pode transformar seu mundo. São jovens cuja conquista pode ser o protagonismo sobre o próprio corpo. A grande mobilização pode ser aquela de circular sozinho pelas ruas da cidade. A maior participação pode ser aquela nas tarefas diárias, em casa mesmo. Coisas muito simples para a maioria das pessoas, mas que para alguém com algum tipo de deficiência pode se apresentar como um grande desafio.

Segundo a pesquisa Retratos da Deficiência no Brasil (2003), do professor Marcelo Néri (IBRE/FGV), o país tem 24,5 milhões de habitantes com algum tipo de deficiência, o que corresponde a 14,5% da população. Ainda segundo o estudo, 27% deles não têm nenhum grau de instrução e 29% vivem em situação de miséria. As pessoas portadoras de deficiência recebem cerca de R$ 100 a menos que a média dos brasileiros. Dos 26 milhões de trabalhadores formais ativos, somente 537 mil (2%) são portadores de deficiência.

Esta é a história do Ponto de Cultura Para Todos os Especias, da FASAM, em Itu, interior de São Paulo. Seu Plano de Mobilização tem por objetivo resgatar e divulgar a importância histórica e cultural da cidade de Itu, através de uma série de intervenções culturais, sociais e ambientais, promovida por jovens que freqüentam as oficinas da instituição. E é importante explicar que, pela própria metodologia de trabalho da FASAM, baseada no convívio entre diferentes, iremos encontrar nessas oficinas jovens com deficiência visual, outros com deficiência motora, um grande número com deficiência intelectual e outros tantos sem qualquer tipo de deficiência, mas que também, assim como todos nós, têm lá as suas dificuldades e barreiras a serem superadas.

Seguimos para Itu. Berço da república brasileira. Cidade que, através das sátiras do comediante Simplício, ganhou a fama de ser um lugar de superlativos. A FASAM fica numa rua próxima ao centro histórico da cidade, próxima também ao hotel onde estou hospedado. Faço esse trecho caminhando e vou observando as peculiaridades arquitetônicas de uma cidade com muita história. O casario com as janelas altas, de cara para a rua. As ruas com alguns trechos ainda em paralelepípedo. As calçadas altas em relação ao nível das ruas. Os altos degraus de pedras inteiras que dividem o acesso das casas para as calçadas. Tudo muito bem cuidado.

Mas eis que surge a pergunta. E a acessibilidade? Imagino que deva ser bem difícil para um cadeirante ou para pessoas com dificuldade de locomoção circular naquela região da cidade. Enfim…

Ao chegar sou recebido pelo Zé e pelo Sandro, que me apresenta todos os espaços e pessoas da FASAM. Muitas pessoas. As que trabalham, as que freqüentam os espaços, as que, assim como eu, estão lá os visitando. Vamos até a Vera e o Marcos, que serão os meus guias durante esses dias.

Logo na seqüência tem início uma roda de Hip Hop, com a participação de jovens de algumas comunidades da cidade. Todos juntos. Com deficiência, sem deficiência, todos jovens. Cada um fazendo a sua rima como pode, dançando do jeito que dá, ouvindo o MC e convivendo com as diferenças.

De lá seguimos para a casa de D. Isabel, que fica num bairro bastante afastado ali do centro da cidade. Aproveitamos para dar uma carona para a Aline, cadeirante, que também mora num bairro bastante afastado do centro, porém do lado oposto ao bairro de D. Isabel, mas que sempre está lá pela FASAM.

D. Isabel, 40 anos, é uma daquelas mulheres cuja vida daria um belo livro. Fico até preocupado em tentar resumir aqui, em tão poucas linhas, uma trajetória tão ímpar. Aliás, lembra do Zé? Pois ele é o ex-marido dela e também tem uma bela história. Isabel engravidou pela primeira vez aos 15 anos, porém, no nono mês de gestação, a neném, uma menina, morreu. Esse acontecimento marcou muito toda a sua vida. Anos depois, teve seu filho mais velho, o Ebony, hoje com 22 anos, que nasceu com autismo. Numa terceira gravidez, ela sofreu um aborto natural, aos três meses de gestação.

Sempre com a esperança de ter aquela menina que perdera em sua primeira gravidez, Isabel tentou novamente. Dessa vez nasceu Ricardo, hoje com 18 anos, e que tem a Síndrome de Down. “E eu sempre acreditei que eu deveria ter aquela filha. Então, depois do Ricardo, eu tentei mais uma vez e veio a menina. Ela se chamou Pâmela. Também com a Síndrome de Down. E foi uma menina que marcou muito a minha vida …”. Seus olhos se enchem de lágrimas. “Ela viveu muito pouco. Só cinco anos. Mas me deixou muitas coisas boas, me deu muita força para eu acreditar no amanhã… De acreditar neles [os filhos], mesmo com toda essa problemática, essas deficiências. E ela partiu com cinco anos de idade”.

Nessa época, Isabel e seu marido, o Zé, moravam num sítio. A poeira das estradas de terra, aliada a algumas cardiopatias, comuns em pessoas com Síndrome de Down, levaram a algumas complicações que fizeram com que Pâmela passasse mal e morresse nos braços de seu pai, à beira da estrada, em busca de socorro.

O caso de Isabel e José chamou a atenção de alguns pesquisadores da Unicamp, que, após exames e estudos, detectaram um problema genético em Isabel. A probabilidade de ela ter filhos com algum tipo de deficiência está em 95%. “Os médicos me diziam que eu não podia mais ter filhos, pois tinha 95% de chance de ter outros filhos com deficiência. Eles diziam, ‘Você não pode mais ter filhos’. Acontece que mais uma vez, dessa vez sem planejar, eu fiquei grávida. Na época todos diziam para eu tirar o neném, pois se eu quisesse até o juiz autorizaria, já que eu tinha todo esse problema. Mas eu fui em frente. O pessoal dizia, ‘Você tá lôca! Já tem dois filhos com deficiência, vai ter mais um!’. E então nasceu a Paloma, que hoje tem 13 anos. Ela não tem nenhuma deficiência. E é meu braço direito”.

Não bastasse toda essa história com os filhos, Isabel também tem em sua biografia uma juventude de lutas por melhores condições de vida para a sua família. Ela participou de movimentos de trabalhadores sem teto, chegou a ocupar prédios abandonados no centro da cidade de São Paulo e depois de muita luta conquistou junto com seus companheiros o direito de morar em um edifício liberado pela prefeitura para este fim. “Nós queríamos o direito de ter uma moradia de acordo com a nossa renda, que a gente pudesse pagar”. Porém, nessa época, já com dois filhos, e com dificuldades de se manter em São Paulo, teve que abandonar sua conquista e se mudou para Itu, onde foi morar em um sítio. Aquele mesmo onde tempos depois perderia sua filha Pâmela.

Separou-se de José, que durante um bom tempo chegou a cuidar sozinho de todos os filhos do casal. Alguns anos depois, ‘adotou’ para sua família o Murilo, hoje com 16 anos. Murilo é deficiente intelectual e filho de uma amiga de Isabel que, por trabalhar durante todo o dia, deixa Murilo aos seus cuidados. “O Murilo veio pra aumentar a família. Eu o vejo como que substituindo um dos filhos que eu perdi. E com ele eu tive que começar tudo de novo… com sete anos de idade ele ainda não falava, não comia sozinho. Hoje, dentro da deficiência dele, o Murilo tá com um desenvolvimento bem avançado. Então isso é bem gratificante… Foi mais uma luta que veio pra mim. Mais uma aprendizagem, como mãe, como ser humano. Foi muito bom ter conhecido o Murilo”.

Ouvir D. Isabel traz muitas lições. E quando a professora é boa, a aula parece passar rápida. Já é noite. Amanhã tem mais.

No dia seguinte, logo pela manhã, uma conversa com um grupo de pais. Afinal de contas, eles têm um papel decisivo na forma como os jovens com deficiência vão encarar o mundo. Em comum, relatos de pessoas que saíram de uma situação de fragilidade, diante da descoberta das deficiências dos filhos, e foram se fortalecendo e aprendendo a superar as dificuldades, os preconceitos, o despreparo das cidades, das instituições, das pessoas. Sobre esse despreparo, lembrei-me da tarde anterior, quando, durante nossa conversa com Isabel, chegou o oficial de justiça trazendo alguns papéis do processo de interdição de Ricardo. Para que o processo fosse mais rápido, seria necessário que o próprio Ricardo assinasse os documentos, o que não foi possível [D. Isabel é quem teve que assinar]. Mas, fiquei pensando, oras bolas, carambolas… Supondo que o Ricardo conseguisse escrever seu nome nos papéis, qual o valor desta ciência (sua assinatura) considerando sua situação? Afinal, ele é que está sendo interditado, não? Bem… fechemos esse parêntese.

Aos pais, em comum também, a angústia de quem sabe da finitude da vida que, se seguindo a ordem natural das coisas, chegará primeiro para eles que para seus filhos… “E a gente pensa, ‘Será que eles estarão preparados quando eu partir?’ … ‘Quem vai cuidar deles?’ … ‘Como vai ser?’ … É muito angustiante”.

“Por isso é que é importante que eles convivam com outros jovens, com deficiência, sem deficiência, para que eles aprendam a enfrentar o mundo sozinhos”.

“Eu tive que aprender a duras penas a entregar o filho pro mundo… Meu filho teve problemas com drogas e eu tive que aprender a duras penas. Amo meu filho, quero o melhor pra ele, mas descobri que não sou dona dele. Vou ajudá-lo no que ele precisar, mas não sou dona do destino dele”.

O papo com os pais foi muito bom. Ajudou a entender que na maioria das vezes o desenvolvimento de um jovem com deficiência depende muito mais da atitude dos pais que da capacidade dos filhos.

Na seqüência conversamos também com a secretária de educação do município. Ela foi até a FASAM para receber dos jovens uma carta construída a partir das atividades do Plano de Mobilização do Frutos do Brasil. Nesse documento os jovens expressam tudo aquilo que vivenciaram durante as discussões nas atividades e apontam para uma série de demandas e problemas comuns. Também havia sido convidado o secretário de cultura. Mas ele não apareceu. Mesmo assim, essa carta foi encaminhada para ele. Também receberam cópias o presidente da Câmara Municipal e o prefeito de Itu.

O dia também foi recheado com uma animada roda de capoeira e uma fala da União Negra Ituana, onde foram apresentados e discutidos vários aspectos históricos da discriminação à cultura afro-brasileira em Itu. E no finalzinho da tarde, uma roda de conversa com alguns jovens. Falamos sobre medos, desejos, sonhos…

Aline – “Eu não tenho medo nenhum. Eu corro atrás dos meus sonhos. Meu sonho mesmo é gravar um CD com o pessoal do coral. E eu já falei pra minha mãe: tem um bocado de coisa aí que eu quero realizar! E um dos meus outros sonhos é de um dia eu poder andar sozinha, sem depender de ninguém. E eu quero dizer que sou muito feliz por estar aqui com vocês”.

Cris – “Ah, eu tenho um sonho… Sonho de ficar junto com o Ricardo”. Diz ela toda encabulada, sorrindo para o Ricardo, ao seu lado. A Cris e o Ricardo são deficientes intelectuais e se conheceram na escola onde estudam.

Ricardo – “A gente se conheceu em 2007. De 2007 pra 2008. Eu gosto muito de cantar, de dançar, e daí eu fiz uma espécie de loucura de amor pra ela…”.

Jean – “Meu sonho é ajudar minha mãe a construir a casa dela. Ela comprou um terreno para construir, mas não está conseguindo pagar. E eu quero ajudar ela a construir a casa dela, pra gente morar junto … porque hoje eu moro com minha vó…”.

Afinal, mesmo com as diferenças, mesmo com as dificuldades, mesmo com as certezas, e as incertezas, afinal, somos todos seres que mantemos a capacidade de sonhar. E nos sonhos, todos queremos um mundo melhor. Cada um dentro de suas perspectivas…

{ Associação de Familiares e Amigos da Saúde Mental de Itu – FASAM }
Rua Santa Rita 1463, Centro – Itu, SP
www.fasam.org.br


Leia aqui os textos produzidos pelo pessoal da FASAM para a Revista Frutos do Brasil:

JUVENTUDE: SUA VEZ E SUAS VOZES

Por Marcos Pardim

A ações do Ponto de Cultura Para Todos os Especiais devem ser vistas e analisadas dentro de um contexto mais amplo, contexto este engendrado na história de 17 anos de atividades sociais da FASAM (Familiares e Amigos da Saúde Mental de Itu).

Como seu próprio nome sinaliza, trata-se de uma organização não governamental nascida sob a intenção primeira de se trabalhar com foco em um público especial, notadamente os portadores de patologias mentais.

Alicerçada em experimentos bem sucedidos de programas educacionais, culturais e de cidadania, a entidade viu seu público-alvo diversificar-se de maneira irreversível. Hoje, para além de seu público inicial, a FASAM atende uma diversidade de crianças e jovens, entre 8 e 18 anos, todos com históricos variados de vulnerabilidade social.

Contextualização necessária, levando-se em consideração os índices sociais disponíveis, Itu encontra-se situada na faixa das cidades mais ricas do Estado de São Paulo. Em contraste preocupante, quando o tema é Educação, os índices despencam e transformam esta relação em um abismo, cuja transposição exige ações sócio-educativas eficazes.

Ações sociais de sucesso, no mais das vezes, exigem de seus assistidos um imprescindível sentimento de pertencimento. A FASAM é sensível a esta premissa. Nossas crianças e jovens são estimuladas a sentirem-se, de fato e de direito, cidadãos ituanos.

Somos 150 mil moradores, aproximadamente. Uma questão importante que acreditamos seja interesante de levantar é: quantos poucos de nós tivemos ou teremos a chance de compreender que nossas vidas são frutos de uma história de lutas e sonhos, derrotas e conquistas, lágrimas e sangues, honradez e desonra, dominação e subjugação? Quantos poucos e nós verdadeiramente possuímos o sentimento de pertencimento, invalidando em nós a triste sensação que muitas vezes sentimos de que nossas memória e história não passam de um engodo?

A FASAM, enquanto Ponto de Cultura de um programa de política pública cultural do Ministério da Cultura, acredita que é mesmo sempre muito bom que os deuses da Cultura, da Educação e da Cidadania estejam a postos, de plantão. Mas acredita mais ainda que a nós, pobres mortais, é dado escolhermos a apatia e o desinteresse ou fazermos a nossa parte. Escolhemos sempre a segunda opção, sobretudo porque temos uma crença inquebrantável na força das ações da juventude brasileira. Frutos de um Brasil que tem jeito.

Por Miriam de Oliveira Ribeiro

Hoje em dia, muitos jovens sofrem com vários problemas.

São muitas as nossas dúvidas, nossas angústias: que profissão seguir? O que estudar? Como ganhar dinheiro? Como nos fazer ouvidos? Quem dará atenção a nós e nossos sonhos?

Isso tudo acaba nos deixando muito aflitos, e muitas vezes inseguros. Daí para os problemas, a distância é um pulo.

Vícios, como drogas, álcool e prostituição caminham diariamente, lado a lado. Um descuido e estamos dominados por eles.

Em meio a essa atribulação toda, juntando em excesso de informações e um acúmulo de decisões que devemos tomar, muitos de nós optamos por seguir o caminho das drogas, da violência ou da prostituição. Em alguns casos, até mesmo pela sobrevivência.

Mas por que tantos jovens andam escolhendo esse caminho?

Certamente, não falta de informação.

A grande maioria dos que escolhem esse caminho sabe muito bem onde “está pisando”. O que lhes falta é uma perspectiva que lhe aponte uma nova maneira de abrir os olhos e enxergar que nem sempre o melhor caminho é o mais curto. E o bem é o melhor a ser feito.

Cada ser humano pode, sim, mudar o mundo. Basta querermos.

A forma como ele está nos apresentado, acho que não nos resta dúvidas, não é a mais apropriada. Pelo menos, não tem sido feliz em suas tentativas de amenizar os nossos problemas.

Que um novo jeito surja. Que a sociedade seja melhor. Que as nossas angústias não sejam vistas apenas como problemas passageiros, coisas da idade, bobagens juvenis. Não são. E continuarão a não ser.

É preciso ação. É preciso mobilização. É preciso que nós, jovens, sejamos participativos. Separados, somos apenas um detalhe. Juntos, unidos, fazemos a diferença!

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