Fábrica do Futuro

Jovem não é futuro, é presente
Ponto de Cultura Fábrica do Futuro
Cataguases, MG

Por Leonardo Trielli

Fabrica do FuturoUma viagem de cinco horas e meia de ônibus separa a capital fluminense de Cataguases, MG. Primeiras horas de quinta-feira, 19 de abril, o veículo estaciona na plataforma da pequena rodoviária da pequena cidade. São quase duas da manhã e o táxi me deixa na porta do hotel. Mesmo sendo confortável, o ônibus não é o melhor lugar para descansar. Preciso de uma cama para me preparar para o dia seguinte. Durante estes três dias, além de conhecer melhor a Fábrica do Futuro, organização que participou do encontro de Salvador, eu ainda vou participar de um seminário, no sábado à noite.

Quinta-feira, 19 de março

3791583537_c5ce7d61b4_oQue dia lindo! A cidade parece convidar pra um passeio, só que eu tenho que estar na Fábrica às 10h. Em Cataguases, ir à rua, mesmo que para realizar tarefas cotidianas – como pagar uma conta no banco, ou fazer uma compra – é sempre um passeio. Tudo tem história e não é raro tropeçar em um monumento ou painel genuinamente modernista enquanto se vai andando. Os moradores mais antenados na história se gabam de pertencer a uma cidade que praticamente viu nascer o movimento Modernista no Brasil.

Eu demorei a chegar. Estava com o endereço antigo. A Kaká Viana já tinha me enviado o e-mail com a correção do endereço. Pelo visto, não dei a atenção necessária para a mensagem.

Bárbara Piva, produtora cultural da Fábrica, que todo mundo conhece e chama por Babi, me recebeu, junto com o coordenador de comunicação e projetos Gustavo Baldez. Os dois me apresentaram a casa onde fica o núcleo de Cataguases da Fábrica. O lugar é muito bacana. A construção de linhas retas e angulosas abriga todas as equipes dos projetos em andamento e também o staff fixo da Fábrica do Futuro. A casa ainda tem um enorme espaço externo, nos fundos, onde a Digi costuma brincar pela grama. “Digi” é o apelido da Digitaligada, a mascote vira-lata mais fofa e dócil. A Babi me explica que o enorme espaço é onde acontece a maioria dos eventos da Fábrica – como será no caso da Conferência de sábado.

A Conferência é a segunda que vai acontecer. A primeira foi em setembro de 2008, quando os jovens da região se reuniram no 1º Fórum de Juventude, Cidadania e Cultura e, juntos, elaboraram o Pacto com a Juventude, que foi assinado pelos então candidatos à prefeitura da cidade. Agora, é hora de o documento ser entregue oficialmente ao prefeito eleito.

O jornalista Ricardo Beghini, do jornal O Estado de Minas chegou. Ele fora convidado pela assessoria do Pontão Frutos do Brasil e agora começava a levantar todas as informações para escrever uma matéria sobre o terceiro setor. Como o estômago de todos começava a dar sinais de vazio, fomos juntos almoçar.

O processo de mobilização juvenil já havia germinado na Fábrica do Futuro antes de eles participarem do Projeto Frutos do Brasil, com o projeto Identificart. O Plano de Mobilização apresentado pela Fábrica tem como objetivo identificar novas formas de participação e levantar problemas existentes nas seis comunidades em que o projeto Identificart atua. São 50 jovens envolvidos, no resgate, reconhecimento, promoção e valorização do que existe de bom nas comunidades onde vivem. A Karina Ribeiro e o Juliano Braz são os agentes de mobilização que encabeçam este processo. E logo que chegamos de volta do almoço, entraram os dois, a mil por hora, com uma enorme equipe de produção.

Descobri depois que a equipe era tão grande porque eram duas: o pessoal da Fábrica do Futuro mais a equipe da Affas (Associação Faça uma Família Feliz), Ponto de Cultura de Sabará que passava uma semana em Cataguases pelo projeto de intercâmbio entre Pontos.

Fui com a equipe para assistir às gravações de um dos documentários que a Fábrica está gravando sobre os bairros da cidade, uma das ações do Plano de Mobilização, que faz parte do Identificart. Por coincidência, era a vez do bairro Leonardo. Dois jovens de 13 anos, ambos xarás meus e do bairro, se encarregariam de apresentar a entrevista com o filho do Coronel Leonardo, o fundador do bairro.

“Trabalhar com patrimônio em bairros com os jovens é importante porque eles conseguiram perceber que ali há um patrimônio seja um antigo morador que ajudou todo mundo, ou mesmo um campo de futebol, que é uma área de lazer”, diz Karina, agente de mobilização da Fábrica. E realmente, dá gosto de ver a molecada de 13 anos tomando as rédeas e participando dessa forma. Eu sou testemunha disso. Mal sabia que isso é só uma parte.

A equipe do “Ti Vi no Morro”, projeto de audiovisual da Affas, de Sabará (MG) fazia o “registro do registro”, uma espécie de making of dos documentários do Identificart. Depois da minha visita a um dos bairros de Cataguases, fomos eu, o jornalista do Estado de Minas e a Karina para o Centro, conhecer o Fábio Paternoster, que acabou de abrir a primeira empresa que fará parte de um pólo regional de produção de vídeos, formada por diversas pequenas empresas, todas abertas por jovens formados pela Fábrica do Futuro. “A idéia é fazermos todas as produções audiovisuais da Fábrica do Futuro com estas empresas”, me explicou a Kaká. Enquanto eu tirava fotos dele e da empresa, ele contou ao jornalista que sua vida dera uma guinada, desde que começou a trabalhar com a Fábrica do Futuro.

Com a noite se aproximando e o cansaço começando a tomar conta, voltei ao Hotel onde eu estava hospedado. Com o dia concluído, fui encontrar o pessoal de Sabará para jantar.

Sexta-feira, 20 de março

3792443490_b30d34e4e0_oO Hotel Cataguases teve o seu projeto arquitetônico tombado pelo Iphan. É um dos mais tradicionais da cidade e acho que foi uma boa escolha ter ficado aqui. Só o fato de ter alguma história, já valeu a pena. Da janela do meu quarto eu vejo o Rio Pomba, que corta Cataguases e isso dá vontade de sair andando por aí, para conhecer melhor o que a cidade reserva para os seus visitantes. O dia de hoje seria praticamente como o anterior. Mas logo que eu cheguei na Fábrica, a Babi propôs um passeio turístico pelos principais pontos. Foi como se ela tivesse lido os meus pensamentos! Ingênuo, fui contar o dinheiro para o táxi.

– Nós vamos a pé!

Sol forte e temperatura quente. Mas, à sombra, é agradável. Apesar de que nada disso fazia diferença. O que eu queria era ver mesmo a cidade e as suas obras. E que obras! Ela me aponta as casas projetadas pelo Niemeyer. O portal da Avenida Humberto Mauro, uma obra modernista e esquisitona, mas bela, que não tem frente, trás, lateral. É até difícil fotografar. Nenhum ângulo consegue captar o que realmente é o monumento.

– Babi, é impossível a cidade ser aculturada. Quem nasce aqui não dá valor pra isso?

– Dá, Léo, mas não é todo mundo. Tem gente que não dá a menor importância a estas coisas.

“Tai a importância do trabalho da Fábrica”, eu pensei comigo. Ajudar a juventude a perceber o que eles têm em mãos e o que eles podem fazer com essa riqueza cultural. Porque a gente sabe que nada disso foi plantado de uma hora pra outra. Tendo, portanto, um longo caminho percorrido até então, a tradição de ser parte de movimentos artísticos, políticos e culturais precisa continuar. Ainda mais numa cidade tão bonita como essa.

Passamos pela igreja matriz Santa Rita de Cássia, uma construção de 1944 em estilo moderno, com um mural em azulejo assinado pela pintora Dijanira contando a história da santa que dá nome à igreja. Há diversas casas com assinatura de Niemeyer. No caminho, entramos em um prédio, que deve ser da mesma década de 40 ou 50 que por dentro parecia uma miniatura do prédio da Bienal, em São Paulo, com traços curvos e elementos vazados. Lá de cima, deu pra ver a praça central e o desenho, com a concha acústica no lugar dos tradicionais coretos que costumamos ver em pequenas cidades de interior.

Andando até o outro lado do rio, tive a oportunidade de ver de perto o Monumento à José Inácio Peixoto, inaugurado em 1956 e composto pelo mural “As Fiandeiras”, de Portinari e a escultura “A Família”, deBruno Giorgi. Atravessando de volta, visitei o Centro Cultural Humberto Mauro, local que abriga uma sala de teatro, espaço para exposições e um museu permanente sobre a vida do cineasta Humberto Mauro, um dos ilustres da cidade e um dos pioneiros do cinema brasileiro.

De tanto andar, a fome veio mais rápido. Fomos almoçar e mais tarde, encontrei os dois jovens mobilizadores, Karina e Juliano, acompanhados pelos meninos de Sabará. Fui conhecer o Instituto Francisca de Souza Peixoto.

Não havia percebido, mas neste dia se comemora o dia internacional da água. Só soube quando presenciei uma surpreendente marcha de estudantes na rua. Eram aproximadamente 200 meninos e meninas com idades entre 7 e 9 anos.

Depois de conhecer quase todos os projetos do Instituto, que foi onde a Fábrica do Futuro nasceu, e me surpreender com os equipamentos sócio culturais e educacionais do local, fomos todos para mais uma das gravações de documentários. Desta vez, na AFAN (Associação Fraterna de Assistência aos Necessitados), localizada em um bairro de periferia. Ali, dezenas de jovens e crianças moradores do bairro se organizam voluntariamente para separar as várias doações recebidas pela AFAN. E também é um local de convivência, com uma singela biblioteca e uma vista de tirar o fôlego.

No fim das gravações, com todo mundo devidamente cansado do longo dia, fui chamado para novamente jantar com o pessoal. E eu já começava a ficar ansioso com o seminário do dia seguinte. Karina me conta que espera umas setenta pessoas para o evento. O prefeito da cidade ainda não confirmou a presença.

Sábado, 21 de março

FabricaHoje eu dei um tempinho a mais pra acordar. Afinal, mesmo que seja dia de trabalho, não é um “dia útil”. Além disso, o seminário é só à noite, então eu vou ter tempo. Aproveitei este dia para cuidar da minha volta ao Rio. O meu vôo sai às 10h da manhã no domingo do Santos Dumont. Mas só tem ônibus de Cataguases direto pro Rio até às cinco da tarde de hoje. Então, vou ter que dar um jeito de ir atéLeopoldina, cidade a uns 30 quilômetros daqui. Lá tem um ônibus que sai uma hora da manhã.

Com a logística do meu retorno quase resolvida, caminhei até a Fábrica – a esta altura eu já conhecia melhor a cidade, tinha, pois, mais liberdade para andar por lá. Queria checar se eles não precisavam da minha ajuda para colocar a mão na massa. Tarde demais. A equipe é muito ponta firme e já havia deixado tudo pronto pra receber os convidados para o seminário. Voltei, então, ao hotel, para um banho, uma roupa mais adequada, arrumar as malas e fazer o check-out.

Às sete e pouco da noite, a Kaká Viana e o César Piva, da Fábrica, chamaram para compor a mesa eu, NegroF, do NUC (Negros da Unidade Consciente) de Belo Horizonte e o vereador Guilherme Valle, representando a Câmara Municipal de Vereadores de Cataguases. Cada um dos componentes apresentou-se, falou um pouco dos projetos em que trabalha então foi aberta a discussão. Foi legal ter participado dessa conferência. Enquanto eu estava ali em cima, via a preocupação daqueles jovens – os da mesa e da platéia – em exercer plenamente sua cidadania. O diálogo foi importante, porque mostrou aos representantes do poder público da cidade que a juventude local está vigilante – e uma das provas disto foi a entrega do Pacto com a Juventude para o prefeito da cidade, que não estava presente, mas foi representado pelo jovem Samuel Vieira, que trabalha na área de comunicação do gabinete. A noite terminou com uma apresentação de malabares e uma improvisação de Rap, feita pelos jovens de Cataguases, Sabará e NegroF.

Nesta noite, o vereador Guilherme Valle citou uma frase dita pela Kaká Viana alguns anos atrás na Câmara de Vereadores. Ele lembrou que certa vez, durante um debate na câmara, enquanto falava da importância da juventude, soltou a frase já manjada, mas que muita gente costuma utilizar: “o jovem é o futuro do país!” Mas a Kaká, sabiamente, tomou a palavra e corrigiu o vereador: “o jovem não é o futuro, vereador. Nós somos o presente do país.” A frase não saiu mais da minha cabeça. E é, na minha opinião, a síntese perfeita do trabalho não apenas da Fábrica do Futuro, mas de toda a juventude brasileira que está mobilizada.

{ Fábrica do Futuro }
Av. Humberto Mauro, 340, Centro – Cataguases, MG
www.fabricadofuturo.org.br


 

Leia aqui os textos produzidos pelo pessoal da Fábrica do Futuro para a Revista Frutos do Brasil:

Por Karina Ribeiro e Juliano Braz

À primeira vista, a proposta de fazer uma mobilização social em bairros na cidade de Cataguases me pareceu um pouco difícil, pois tínhamos que romper com o fatalismo e a desesperança que os jovens das comunidades sentiam. Nosso primeiro objetivo foi mostrar para eles que mobilização social é um movimento sem um dono, sem hierarquia, onde todos compartilham suas opiniões.

A receptividade das comunidades com a nossa proposta de identificar patrimônio materiais ou imateriais nos surpreendeu! Parecia que era algo que estava instalado há muito tempo, pois todos faziam questão de ressaltar a união e a vontade de seus moradores de melhorar e mudar a visão que outras pessoas tinham, mesmo que seus bairros não tivessem grandes obras de arte. Os patrimônios escolhidos pelos jovens foram pessoas que contribuíram para melhoria do bairro, associações sem fins filantrópicos, áreas de lazer e preservação de bens que pertencem à todos da cidade.

Os encontros e o intercâmbio que nós proporcionamos aos jovens de uma comunidade com a outra fez quebrar preconceitos e chegarmos à conclusão que a intenção deles não é se mudar dali, mas sim mudar o lugar onde moram.

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