CEDECA Pé na Taba

De receitas fáceis
Ponto de Cultura Pé na Taba
Manaus, AM

Por Leonardo Trielli

3791501339_95d42d9eb7_oMais um local desconhecido. Mais uma capital a desbravar. Era isto que eu pensava no sábado, antes de fechar as malas. Eu estava indo para Manaus. Minha primeira vez na capital Amazonense. Meu primeiro contato com a floresta mais famosa do mundo.

Infelizmente, seria uma visita muito rápida, pois tivemos que fazer a nossa programação no Norte do país levando em conta a estranha malha aérea brasileira. Sobraram-nos dois dias e meio em Manaus e mais de três em Boa Vista, RR, para onde eu seguiria nas primeiras horas de 4ª feira. Infelizmente, por conta desta situação, não pude participar de nenhuma das atividades previstas no Plano de Mobilização que eles montaram e executaram para o Projeto Frutos do Brasil. De qualquer forma, o Ponto de Cultura Pé na Taba era uma das experiências do Pontão do Frutos que teve muito destaque, inclusive na imprensa local. Por isto, quisemos ver de perto pelo menos o cotidiano da organização.

Domingo, 29 de março

“Senhores passageiros, estamos iniciando os procedimentos de pouso no Aeroporto Internacional de Manaus. A temperatura local é de 23 graus e o nosso pouso se dará às 16h00.”

Pensei comigo que pelo visto eu não iria sofrer com o calor que muita gente me disse que eu iria passar. Afinal de contas, 23 graus é uma temperatura razoável, dá pra enfrentar na boa. Engano meu. A umidade da cidade, que a gente sente na hora em que a porta do aeroporto se abre dá a sensação de estar bem mais quente do que parece.

Não sei se eu transpareci com uma cara de bobo ou se foi a experiência dos mais de 30 anos de profissão do taxista que entregaram o meu total desconhecimento da capital. O motorista na hora percebeu que eu nunca havia estado por aquelas bandas. E me deu as “dicas de sobrevivência” na capital manauara:

“Aqui a gente não tem polícia. Mas também não tem ladrão. Não se preocupe. Porque a polícia era o ladrão, então está todo mundo preso!”

Segui rindo para o Hotel, bem no centro de Manaus. Da minha janela eu via o porto e o Rio Negro. O explorador francês Jacques Cousteau ficou hospedado naquele mesmo hotel, em 1981. Pelo visto o lugar já teve seus dias de glória. Hoje é apenas um hotel decadente no centro. Porém confortável e limpo. E, mais importante: tem ar-condicionado.

Desfazendo as malas, começo a pensar na minha visita de amanhã ao CEDECA. O Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente – CEDECA PÉ NA TABA, é organização que foi fundada em julho de 2003.

3792308390_dfbd99c2c0_oO CEDECA Pé na Taba trabalha temas como combate à violência sexual de crianças e adolescentes, combate à violência policial, capacitação de conselhos tutelares e de direitos, acompanhamento de medidas sócio-educativas para adolescentes infratores, combate a exploração de trabalho infantil, luta contra a impunidade em homicídios contra crianças e adolescentes, monitoramento do orçamento público para as áreas da infância e adolescência – ou seja, temas para mobilização é o que não falta.

Para tanto, utiliza como estratégia o atendimento direto aos adolescentes e jovens, por meio de ações pedagógicas, psicossociais e sócio-culturais, que possibilitem sua inclusão e emancipação humana, através do Ponto de Cultura Pé na Taba. Estes são os jovens que fizeram e fazem parte do Plano de Mobilização do Ponto de Cultura. E pelo menos alguns deles eu vou poder conhecer pessoalmente. Quero saber também como se deu o envolvimento do Ricardo Nascimento e da Raimunda Morais – ou “Rai”, apenas – no CEDECA. Ambos foram os representantes do Pé na Taba no encontro de Salvador.

Com um certo receio de me perder, explorei muito pouco a cidade. Além disso, tinha viajado alguns milhares de quilômetros, estava cansado e com fome. Fui em um shopping Center ali ao lado para comer algo, voltei logo para o hotel e meu dia acabou cedo. Uma hora mais cedo que de costume – em Manaus, estamos uma hora antes do horário de Brasília.

Segunda-feira, 30 de março

3792300106_b1fd5a2fc6_oClaro que acordei cedo. E claro que fiz confusão. Fui parar na sede administrativa do Pé na Taba. Mas a Lucimar se antecipou às minhas confusões e enviou o motorista deles de Kombi para me buscar ali e me levar até a sede do Ponto de Cultura. Para minha surpresa, eles ficam dentro de uma escola.

Trata-se da Escola Municipal Eng. João Alberto Menezes Braga. O colégio fica localizado no bairro chamado Vale do Sinai, na Zona Norte de Manaus. Bairro simples, poucas semanas antes havia sido tomado por uma forte enchente. E não dá para culpar a natureza por isto – o bairro foi todo construído em cima de um igarapé. Será que o poder público não pensou nas conseqüências de se aterrar uma formação natural como aquela sem nenhum tipo de planejamento? Quem sofreu as conseqüências disso, no fim das contas, foram os moradores. Mais tarde a Rai me contou que antes da enchente, o Pé na Taba ficava em uma casa distante poucos metros da escola. Mas eles perderam a sede, pois a casa foi invadida por mais de um metro de água da chuva. A direção da escola cedeu um espaço ao Pé na Taba, já que a organização já vinha realizando trabalhos com jovens da escola – inclusive o Frutos do Brasil.

Pelo lado de fora do pátio interno, ao lado da porta de entrada do ginásio poliesportivo se chega ao local onde são realizadas as oficinas do Pé Na Taba. Aquela 2ª feira era um dia atípico. Por conta de uma reunião geral de professores e diretores, não houve aula. O sossego tomava conta do espaço, o que não significava que ele permanecia vazio. A todo o momento, a mãe de um aluno chegava para inscrever seu filho em alguma oficina. Com a rede sem fio, eu tenho fácil acesso à internet. O laptop que eu carrego comigo entra na farra digital e é usado pelos aprendizes de informática, sedentos por novas tecnologias.

Esta vontade do saber me chamou a atenção. E eu quis saber como foi montado e estava sendo executado o Plano de Mobilização. Eu já sabia mais ou menos. Como sensibilização, eles promoveram um concurso literário com o tema dos 60 anos da Declaração dos Direitos Humanos. Depois os jovens fizeram um levantamento das necessidades para mais tarde transformar tudo em um documento de reivindicações. Mas como foi o envolvimento? O que mais houve além disso?

“Os jovens ficaram tão eufóricos depois das primeiras reuniões que saíam querendo recrutar outros amigos. Alguns pais gostaram tanto do projeto, que acabaram se tornando voluntários.”

Lucimar Weil, coordenadora do Ponto de Cultura chegou enquanto eu conversava com a Rai. Finalmente a voz que eu conhecia de ouvir ao telefone ganhou um rosto! A fisionomia da Lucimar personifica uma das características do povo da região amazônica: a mistura do índio com o europeu.

Com o passar da hora, a fome aperta. E aceito o convite de experimentar as tipicidades gastronômicas da Amazônia. Fomos, comer uma caldeirada de pirarucu com pirão e suco de cupuaçu – um suco tão consistente que sozinho valeria por uma refeição.

Para a sobremesa, troquei qualquer doce por uma conversa com a Lucimar. Ela me contou toda a sua história de 30 anos de militância pelos Direitos Humanos e como focou o seu trabalho na questão da criança e do adolescente. Nos anos 80 trabalhou na área da infância e participou ativamente da frente para os direitos da criança e do adolescente. “Lutamos pelo ECA”, conta ela, se referindo ao Estatuto da Criança e do Adolescente, que se hoje existe, é graças ao trabalho de milhares de “Lucimares” espalhadas pelo país. Ela conta:

“Hoje a luta é pela consolidação do estatuto. Apesar de termos conquistado muita coisa, os números da violência infantil ainda são alarmantes.”

E são estes números os motivos de ela não parar a sua luta diária. Luta não remunerada, diga-se de passagem. Ela me explicou que nunca recebeu um tostão para militar por esta causa. E este nem é o objetivo. Isto faz parte de sua essência, de sempre “lutar pela libertação dos povos”, nas suas próprias palavras.

A conversa durou bastante. Tanto que não vimos o tempo passar e ela estava começando a se atrasar para uma reunião marcada para a parte da tarde. À noite, haveria a oficina de teatro, e eles me chamaram para assistir. Fui para o Hotel onde, mais tarde, a Lucimar me buscou para voltarmos ao Pé na Taba.

Durante a aula de teatro tive contato com os jovens que participam do Ponto de Cultura. Os meninos e meninas se dispõem a sair de casa a noite e voltar à escola para aprender e ter contato com a cultura. Aqui não existe o estereótipo difundido por todos os cantos, do adolescente consumista, alienado, alheio. Ali eles estão aprendendo e sendo cidadãos. E isto com uma receita simples: uma oficina de teatro.

O Ricardo e a Lucimar fazem questão de fazer um City Tour por Manaus. Eu já iria embora no dia seguinte, então precisava conhecer, nem que fosse de dentro do carro, um pouco da capital. E passeei pela cidade, onde vi de perto o Teatro Amazonas que fica no centro histórico da capital. Conheci Ponta Negra, a primeira praia de rio que eu conhecia na vida. E um pouco da própria história da Lucimar, que me mostrou o bairro onde ela nasceu e cresceu. E, infelizmente, não tivemos tempo para muito mais. A noite já corria e no dia seguinte, além de mais um dia de visita ao Ponto de Cultura, eu partiria para Roraima.

Terça-feira, 31 de março

3791501339_95d42d9eb7_oMe enrolei na hora do check-out no hotel e acabei perdendo o café-da-manhã regional que a Rai tinha preparado especialmente para mim. Além de envergonhado, fiquei com raiva de mim mesmo. Ainda mais depois de provar um pouco do que eu havia perdido: a Rai levou um pote do creme de cupuaçu que fazia parte do cardápio da manhã. O sabor não tem igual, porque é uma mistura cítrica com um forte adocicado. Diferente de qualquer outra fruta.

Como a Lucimar e o Ricardo, a Rai foi muito atenciosa. Os três foram tão carinhosos que parece até pré-requisito para trabalhar no Pé na Taba. Pensando nisso, comecei a viajar no que motivou cada um deles a estar ali? A Lucimar me contou no dia anterior. Mas e o Ricardo? E a Rai?

Ela era industriaria. Conheceu o CEDECA durante uma oficina de fotografia ali na escola João Braga. Em conversas informais com a Lucimar, ela conheceu melhor a história do CEDECA e gostou do projeto. E foi se envolvendo. Quando ela viu, estava tão envolvida, que não dava mais para conciliar o trabalho voluntário com o emprego. Não teve dúvida: largou o emprego na indústria.

“Eu achei que ia ficar pouco tempo. Mas eu me apeguei demais pelo projeto, pelas crianças, por tudo. Não deu mais pra largar.”

Mas este apego não é apenas emocional. Há também uma causa por trás disto. Há a vivência de uma realidade que ela quer mudar.

“Eu chego aqui e as crianças me contam o que acontece na casa delas. A ausência dos pais. Às vezes, você ouve uma história de abuso.”

Mãe ausente é o que ela não deseja ser. E até isto, o trabalho voluntário no CEDECA proporciona. Ela passa muito mais tempo com sua filha Marta, de seis anos.

O Ricardo abraçou o projeto do CEDECA com vontade.

“Gosto de estar no Ponto de Cultura e ajudar aqueles que precisam, gosto de poder passar um pouco do meu conhecimento para eles e também aprender com eles.”

Para ele, a importância de seu trabalho é a possibilidade de educar através da arte. Explorar, através da arte, a sua sensibilidade os problemas da sociedade como um todo. E sobre o Frutos do Brasil, ele é enfático:

“Cada fase do plano de mobilização para mim foi um aprendizado, na luta por mudanças, estou a cada dia motivado a agir por direitos humanos.”

O histórico do Frutos do Brasil no CEDECA é mesmo um grande motivador. Desde a fase de sensibilização, como contou a Rai, o plano de mobilização foi criando força. Prova disso foi o aumento cada vez maior de jovens que participaram dos eventos propostos. Pra se ter uma idéia, o primeiro, aconteceu no meio de dezembro, uma época complicada para se juntar jovens, já que todos estão gozando de férias escolares. Na ocasião houve presença de 50% do previsto. Mas no 3º evento, a presença foi maciça com 112 jovens e 24 educadores, com programação em horário integral. O resultado do encontro foi a construção de uma Rede Juvenil de Enfrentamento da Violência Sexual de Crianças e Adolescentes. Quer motivação maior do que esta?

Naquela tarde, a Lucimar apareceu novamente. Desta vez, quis me levar para conhecer uma das figuras principais do Vale Sinai, o seu Pedro. Seu Pedro é um líder comunitário nato. Ele tem uma voz comunitária (rádio comunitária) na região e é grande entusiasta dos projetos do CEDECA. Tanto que cedeu espaço na rádio para os jovens divulgarem as ações do Frutos. E ele também foi uma das referências que os adolescentes consultaram para saber dos problemas a serem resolvidos no bairro. Suco de maracujá e dois dedos de prosa são o suficiente para a tarde ficar perfeita. Uma tarde quente, mas que guardava ainda uma chuva torrencial. O seu Pedro e sua esposa não só ofereceram uma carona até o aeroporto, como também a casa deles se eu quisesse me banhar antes de ir viajar, já que eu não estava mais hospedado. E também me convidou para lanchar em sua casa naquela noite, antes de eu partir. Infelizmente recusei o convite por medo de perder a hora do embarque.

Saímos de lá e voltei ao colégio. Pedi à Rai que me acompanhasse até um local onde tivesse um caixa eletrônico. Fomos de ônibus até o shopping. Me chamou a atenção o local onde pegamos a condução. Não havia placa, não havia ponto de ônibus. Apenas um aglomerado de gente. E eu perguntei se ali era mesmo um ponto.

“É sim! Não é um ponto oficial. Mas aqui perto não tem parada de ônibus. Então o pessoal foi parando e sempre pegando ônibus aqui. Agora virou ponto.”

Olha aí o exemplo de mobilização! A população, sozinha, acabou conseguindo uma parada de ônibus, mesmo que espontaneamente!

Meu último dia em Manaus chegava ao fim. O pôr do sol de um laranja intenso mostrava que a noite ia ser clara. Ao chegarmos à escola, o seu João, um senhor que eu acabara de conhecer, fez questão de me levar de carro, ao aeroporto. A Rai nos acompanhou para me dar tchau. Uma pena o tempo ter sido tão curto. Ainda em solo amazonense, eu pensava o quanto a dedicação por uma causa tão difícil – principalmente numa região do país onde os índices de violência infantil das mais diversas ainda são muito altos. Lembrei da longa conversa com a Lucimar. Como melhorar estas condições? Qual a receita para se ter sucesso nesta luta eterna? Concluí que a receita estava pronta e sendo preparada por todos eles. E mais uma vez, senti o contentamento de poder ter sido um pequeno ingrediente dessa fórmula que traz, todos os dias, esperança de um futuro – e de um presente –melhor.

{ CEDECA Pé na Taba }
Rua Thomé de Souza 185, Cj. Dom Pedro I, Planalto – Manaus, AM


 
Leia aqui os textos produzidos pelo pessoal do Pé na Taba para a Revista Frutos do Brasil:

Por Lucimar Weil

A contribuição do Projeto Frutos do Brasil para a consolidação e ampliação do movimento de defesa dos direitos da criança e do adolescente com a participação juvenil foi o grande salto de qualidade da ação do Ponto de Cultura Pé na Taba.

Por Ricardo Nascimento

Cada fase do plano de mobilização para mim foi um aprendizado, na luta por mudanças, estou a cada dia motivado a agir por direitos humanos.

Por Rai Moraes

Hoje sinto um desafio maior de estar compartilhando saberes com a comunidade.

Por Bia

Eu tenho certeza que o jovem é capaz de lutar por seus direitos, ele só precisa conhecer o melhor caminho a percorrer. A experiência que tive no projeto é um exemplo disso.

 

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