AJJ

Temos que assumir a nossa cultura
Ponto de Cultura Centro de Cultura Caiçara
Iguape (Juréia), SP

Por Fábio Munhoz

FOTO 4 - Fim da tarde na Barra da JuréiaO termo caiçara tem origem na locução tupi-guarani caá-içara, utilizada para denominar as estacas, galhos e espinhos ajeitados em torno das aldeias com o objetivo de defendê-las. Também denominavam caá-içarao curral construído de galhos fincados na água para cercar o peixe. Ainda hoje esta técnica é utilizada no litoral sul de São Paulo e no nordeste brasileiro.

Com o passar do tempo, caiçara passou a ser o nome dado às palhoças construídas nas praias para abrigar as canoas e os apetrechos dos pescadores. Por esta aproximação, caiçara também passou a identificar os indivíduos e comunidades dos litorais paulista, paranaense e sul-fluminense.

Este indivíduo caiçara encontra suas raízes lá nos primeiros brasileiros, na miscigenação entre o colonizador e o indígena do litoral. Mais tarde, com a chegada de escravos africanos, o indivíduo caiçara ganhou mais um traço étnico.

Porém, é um erro acreditar que a cultura caiçara seja um elemento homogêneo. A diversidade cultural, tanto material, quanto imaterial, faz-se notar nos tipos de embarcações, moradias, nas modalidades e apetrechos de pesca, nas danças, nas brincadeiras, nas práticas religiosas, nas músicas e cantorias e até mesmo no linguajar e no vocabulário.

As comunidades caiçaras da Juréia estavam fixadas na área onde hoje está abrigada a Estação Ecológica Juréia-Itatins. Porém, com a criação da reserva, boa parte daquelas famílias que lá viviam foram deslocadas para as cidades vizinhas. Separados de sua realidade cultural, muito de suas práticas e saberes começaram a se perder. E foi justamente para evitar que toda esta cultura caiçara, típica daquela região, viesse a desaparecer, que em 1993 foi criada a Associação de Jovens da Juréia, com o objetivo de preservar a memória e os saberes dos caiçaras da região.

Minha viagem para a Juréia começou antes do embarque ali na rodoviária. Como nunca tinha estado lá, nem em Iguape, embrenhei-me internet adentro, buscando referências, informações, mapas daquele local que até então era pra mim uma colcha de relatos que dava conta de um paraíso ecológico no litoral sul de São Paulo.

De passagem do Correio del Rei, na época da Guerra do Paraguai, a palco escolhido para a implantação de duas usinas nucleares, durante a primeira metade da década de 1980, projeto que não vingou, aquela faixa litorânea que se estende desde o município de Peruíbe (SP) até o litoral norte do Paraná, é sempre destacada nos textos e artigos como uma das áreas remanescentes de Mata Atlântica das mais preservadas. À qual, acrescenta-se ainda, toda a riqueza ecossistêmica do complexo lagunar formado a partir da foz do rio Ribeira de Iguape. As belas fotos que surgem na tela do meu computador parecem confirmar aquelas palavras.

É hora de pegar a estrada. São quase 7 da noite quando o ônibus encosta na pequena rodoviária de Iguape. Pelo combinado, vou me encontrar com o Paulinho, da AJJ (Associação de Jovens da Juréia), por volta das 21 horas, assim que ele sair da escola, onde é professor de Filosofia.

Após jantar e vivenciar um pouco da história pelas ruas da cidade, sigo para a praça da Igreja Matriz, meu ponto de encontro com o Paulinho. Não demora muito e ele chega. Seguimos em seu carro para a Barra do Ribeira, onde ficarei hospedado.

Tomamos uma estrada estreita e escura que nos levará até a balsa, onde faremos a travessia para a Barra. Quando estamos chegando no atracadouro, vemos a embarcação em direção a outra margem do rio Ribeira. “Agora só daqui uma hora”, adverte Paulinho, desligando o carro. Como ainda temos que esperar bastante seguimos a pé até um bar, um pouco afastado da estrada, estrategicamente pensado para aqueles que, como nós, têm que inevitavelmente aguardar pela balsa para fazer a travessia. Pedimos uma bebida, nos ajeitamos ali nos bancos e seguimos conversando sobre o plano de mobilização que eles desenvolveram a partir do encontro do Frutos do Brasil realizado em Atibaia, SP. O grande objetivo do plano desenvolvido por eles é divulgar a cultura caiçara e, no caso específico da Juréia, a luta pela preservação desta cultura diante da completa descontextualização territorial imposta pela legislação.

“Os jovens estão produzindo um documentário retratando estas lutas pela preservação da cultura e pela modificação da legislação que rege a Estação Ecológica”.

Essa questão da legislação ficaria mais clara no dia seguinte.

A balsa chega, embarcamos. No trajeto acertamos a programação para os próximos três dias. O Paulinho me deixa na pousada onde ficarei hospedado e volta para a balsa. Ele não mora na Barra.

Amanhece um dia lindo! Percebo que meu celular está sem nenhum sinal. Pelos próximos dias ele seria rebaixado ao posto de despertador… e relógio, para não perder o horário das balsas!

Após o café, enquanto converso com a proprietária da pousada, a Dona Maudi, um homem se aproxima de nós, cumprimenta a todos e pergunta:

– Você é o Fábio, do Frutos do Brasil?

– Sim – respondo.

– Eu sou o Dauro, da União de Moradores da Juréia.

Dauro Marcos do Prado, presidente da UMJ (União de Moradores da Juréia), representante caiçara na Comissão Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais, primo do Paulinho, pai do Marquinho (jovem que, junto com o Paulinho, participou do encontro do Frutos do Brasil, em Atibaia, SP). Assim como o Paulinho, Dauro também nasceu na Juréia e de lá teve que sair com o endurecimento da legislação.

“Nossa luta começou em 1989, após a criação da Estação Ecológica da Juréia, quando os moradores passaram a ter muitas dificuldades, até mesmo passar fome, por conta das limitações da lei. Daí esses moradores vieram pra cidade. Muitos não se adaptavam e queriam voltar. Quando voltavam, percebiam que realmente não era mais possível viver lá no modo de vida com o qual estavam acostumados… a polícia florestal, os guardas-parque, invadiam as casas”, recorda Dauro. “E o que acontece hoje na Juréia é que o mesmo Estado que reprime a cultura tradicional caiçara, sob o pretexto de proteger a natureza, não é capaz de realizar essa proteção. O que a gente vê é um monte de gente de fora entrando na mata pra fazer a extração predatória do palmito, da caxeta, por exemplo”.

“Quem vive na mata, vive da mata, daquilo que ela dá. É o modo de vida. Acontece que pela legislação, Estação Ecológica, Parque e Reserva Biológica são unidades de preservação e conservação integral, não permitindo qualquer tido de atividade humana. Só são permitidas algumas atividades de pesquisa científica e, no caso de ser um Parque, existe a possibilidade de visitação. Para uma comunidade caiçara, por exemplo, isso não basta. Nossa luta é para que as áreas onde ainda existem comunidades tradicionais na Juréia sejam transformadas em unidades de conservação de uso sustentável, as RDS (Reserva de Desenvolvimento Sustentável). Nas RDS, o modo de vida destas comunidades seria preservado”.

“Depois de muita luta, em 2006, nós conseguimos alterar a legislação e foi criado o Mosaico Juréia-Itatins, onde foram criadas duas RDS. A RDS do Despraiado e a RDS da Barra do Una. Não era exatamente isso que a gente queria, mas chegamos num empate com o governo e decidimos consolidar estas conquistas. Nosso objetivo é que todas as áreas da Juréia onde vivem comunidades tradicionais sejam transformadas em RDS”.

“Eu faço parte da Comissão Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais, que foi criada na época da ministra Marina [Silva, ex-ministra do Meio Ambiente do governo Lula]. Lá eu represento as comunidades caiçaras, o que geograficamente vai desde o litoral sul do Rio de Janeiro até o litoral norte do Paraná. Bom, existe uma estimativa que nós, povos e comunidades tradicionais, ocupamos ¼ do território brasileiro, somos cerca de 5 milhões de pessoas. E não por acaso, é justamente onde estão estas comunidades que a natureza está mais preservada. Não é que estas populações foram pra estas áreas porque elas estavam preservadas, mas sim, estas áreas estão preservadas porque estas populações estão lá! Por que o modo de vida destas populações é sustentável! Porque estas populações sabem que dependem da natureza para o seu modo de vida e por isso manejam suas atividades extrativistas de forma não predatória! Eles não derrubam a mata para plantar soja. Eles não derrubam a Mata Atlântica para plantar Pinus e Eucalipto para indústria de papel”.

“E o duro é ver um monte de gente de fora, ambientalistas, que se promoveram em cima da Juréia. Duro é ver ONGs que se promovem dizendo que lutam pela Mata Atlântica e que tem na diretoria donos de industrias que têm imensas plantações de Pinus e Eucalipto. Enquanto eles se promoviam, as comunidades tradicionais ficavam de fora das discussões. Agora, com a organização destas populações isso está mudando. A criação desta Comissão Nacional [de Povos e Comunidades Tradicionais] é prova disto. Nossa luta aqui na Juréia continua e meu desejo é que todas as comunidades tradicionais do Brasil conquistem seus objetivos. É uma luta muito difícil. Além dos caiçaras há os seringueiros, quilombolas, pantaneiros, povos indígenas, ribeirinhos, babaçueiros, faxinaleiros e todos os outros que não consigo lembrar agora. São muitos”.

E os mais jovens, como será que enxergavam toda esta situação? A geração de Dauro e Paulinho nasceu na Juréia, os mais jovens, como o Marquinhos, já nasceram nas cidades. Será que isso implicaria em alguma diferença de olhar? Bom, minha conversa após o almoço seria justamente com o Marquinhos.

Marcos Vinícius de Souza Prado, o Marquinhos, 17 anos, é filho do Dauro e como ele mesmo ressalta, “desde que me conheço por gente eu venho acompanhando essa luta”. Ele cresceu junto com a AJJ.

“Eu vim acompanhando as mudanças da associação, até a transformação em Ponto de Cultura, a realização de cursos, a capacitação das pessoas. Eu cresci com isso. Além do mais, ser Ponto de Cultura possibilitou a abertura de algumas portas, como o Frutos do Brasil, por exemplo, onde a gente conheceu novas pessoas, novas realidades”.

“Hoje eu estudo no ensino médio, numa escola aqui na Barra do Ribeira e faço curso técnico em Iguape, Técnico em Turismo. A gente está trabalhando no pré-plano de manejo da comunidade, estamos fazendo o documentário [sobre a luta pela preservação da cultura caiçara] e fazendo o levantamento do potencial turístico do Parque do Prelado [Parque que surgiu a partir da criação do Mosaico Juréia-Itatins, em 2006]. Minha perspectiva é trabalhar com isso aqui, onde a gente mora”.

“Acredito que devemos tomar consciência do que a gente é. Temos que assumir a nossa cultura. Dizer que é caiçara, não se esconder. Assumir o trabalho para melhorar nossa comunidade, nossa cultura. Acho que é isso que estamos fazendo aqui”.

O papo com o Marquinhos faz surgir uma nova perspectiva para mim. A perspectiva de quem é caiçara, tem orgulho de sua cultura, luta por suas tradições e pela preservação de sua história e costumes, mas sabe que seu futuro não será como fora o futuro de seus antepassados. Sabe que as tradições e espaços caiçaras precisam ser resignificados para serem preservados. E sabe também que esta resignificação não implica necessariamente numa perda de raízes.

Ao final de nossa conversa, acertamos os detalhes do nosso encontro com os demais jovens da AJJ, no dia seguinte. Nos despedimos e antes de iniciar qualquer outra coisa, vou, finalmente, até a Praia da Juréia. Uma praia imensa, vazia naquele dia de semana, mas, segundo os moradores, “cada vez mais cheia de farofeiros durante os finais de semana”.

O sábado amanhece ensolarado, dando pistas do calor que iríamos passar. Logo após o café da manhã, enquanto ainda me espreguiço num dos bancos na área externa da pousada, um jovem se aproxima:

– Fábio?

– Eu.

– Oi, eu sou o Heber.

Heber do Prado Carneiro. Como dá para perceber pelo sobrenome, ele também é da família Prado. Primo do Marquinhos. Com ele sigo para a sede da AJJ, onde vamos conversar com alguns dos outros jovens.

Chegamos na AJJ, um prédio ainda em construção, mas já com capacidade para abrigar as oficinas de artesanato que lá ocorrem. A maquete do projeto da sede revela o desejo de um espaço ainda mais amplo e acolhedor. “Um dia a gente chega lá. Nós vamos construindo as coisas aos poucos, conforme o dinheiro permite”. Ali estão, além do Heber e do Marquinhos, o Kenny, o Pablo e o Pedro, com quem dias antes de viajar troquei alguns e-mails.

Pedro – “A associação nasceu para tentar resgatar as tradições através do artesanato e dos grupos de fandango … desde que a gente era pequeno, a gente já vivia no meio disso, brincava com isso. Foi desde então que nosso trabalho começou. Resgatando essa cultura e tentando trazer pessoas de fora para conhecer também, como foi o caso dos dois aqui [apontando para o Pablo e o Kenny, que hoje participam do grupo de fandango da AJJ]”.

Marquinhos – “Para os nossos pais, que nasceram na Juréia, o dia-a-dia na mata era a escola que preservava os conhecimentos da cultura caiçara. Pra nós isso é diferente. A mata ainda é essa escola, mas pra nós ela não faz parte do dia-a-dia. Nós acompanhamos os mais velhos na mata e tentamos aprender um pouco dessa tradição, tentamos entender como é que acontecia, mas também tentamos ver como pode acontecer, afinal, hoje, nós temos muitas outras tecnologias que podem ser utilizadas para facilitar a vida do caiçara. Como por exemplo o telefone, a internet. São coisas que vieram pra somar e não pra destruir”.

Heber – “Desses conhecimentos que aprendemos com nossos pais, tios, avós, nós ainda utilizamos muitas coisas. Por exemplo, na pesca nós utilizamos algumas técnicas, observamos as fases da Lua, quando o peixe está desovando, quando pode e quando não pode pescar, qual o peixe que deve pegar e qual o que deve soltar. Um outro exemplo, se a gente precisa derrubar alguma árvore, a gente sabe qual a época que pode derrubar. A gente não tem o mesmo tipo de aprendizado dos nossos pais, mas a gente procura aprender e entender os porquês”.

“A gente está distante, mas não tanto. Por que aqui [a Barra do Ribeira] também era uma vila de pescadores. O que mudou foi a vinda de turistas pra cá, comprando casas, terrenos. Isso mudou um pouco o nosso modo de viver. Mas mesmo assim nós não deixamos esses conhecimentos tradicionais de lado. A gente sempre utiliza”.

Sobre o choque cultural entre o tradicional e o que se vive nas cidades, Pablo comenta que com relação ao fandango, por exemplo, “tem muita gente da nossa idade que não gosta, critica, debocha.”

Kenny – “Gostam mais de balada, funk, essas coisas”.

Pablo – “Eu gosto dos dois, mas sou mais para o fandango. Na minha sala, na escola, só têm duas pessoas que gostam de fandango: eu e a Silmara, que é prima de todos aqui. E também têm muitos que gostam de fandango, mas dizem que não gostam, para os outros não tirarem sarro. Muitos tem vergonha das raízes”.

Marquinhos – “O problema é que muitas pessoas vêem o caiçara como alguém que não tem conhecimento… e eu acho isso uma bobagem! O caiçara tem muito conhecimento. Prova disso é que o caiçara conseguiu sobreviver na floresta sem degradar. Onde tem floresta preservada, tem comunidade caiçara ou alguma comunidade tradicional remanescente”.

Heber – “A gente vivencia o choque entre culturas desde sempre. Desde pequenos estamos em contato com turistas, com a cidade, então isso acaba fazendo parte do nosso dia-a-dia. Agora, isso interfere muito mais para os mais velhos. Por exemplo, eles não tinham horários na mata. E a vida na cidade não é assim. As pessoas pescavam pra comer. Agora pescam pra ganhar dinheiro. Não tinha essa coisa de ‘preciso de dinheiro pra comprar arroz’, pois eles plantavam arroz, feijão, tudo, no roçado”.

Marquinhos – “Conheço histórias de famílias inteiras, caiçaras, que foram de vez pra cidade. Famílias que foram pra São Paulo [cidade], lá no centro, trabalhar de vigia, porteiro, que gostariam de voltar pra cá, mas não têm como. Pois não teriam como sobreviver aqui. E eu acho que eles sofrem muito, porque aquilo não é a raiz deles, né … eles ficam lá pela necessidade”.

E o futuro …

Marquinhos – “Minha expectativa é terminar o curso técnico [em Turismo], fazer uma faculdade e me envolver ainda mais com as questões da associação, tendo como visão o potencial do turismo para geração de renda”.

Heber – “Quero terminar o meu curso [também em Turismo] e quem sabe fazer um outro em Meio Ambiente, também ali no colégio agrícola. Depois fazer uma faculdade de Gastronomia e voltar pra cá, para trabalhar o potencial turístico da região, para que a gente possa viver aqui, no nosso local”.

Pablo – “Vou começar agora o curso técnico em informática e também em hotelaria. Eu não quero sair daqui. Saio para estudar, mas volto, porque quero melhorar minha comunidade. Meus pais querem que eu saia daqui, que eu construa uma vida melhor em alguma cidade onde as condições sejam melhores. Mas eu não quero. Quero lutar para valorizar o lugar onde eu nasci”.

Kenny – “Eu quero ir pra marinha”.

Pedro – “Eu quero terminar meu curso técnico em informática e fazer um outro em hotelaria, visando a questão do turismo aqui na região. E mais tarde queria fazer uma faculdade de redes, redes de computadores, pra trazer isso pra cá, pro ponto de cultura. E depois trabalhar aqui, na comunidade, não sair daqui da Barra do Ribeira”.

O papo com os meninos confirma a impressão da conversa que tinha tido com Marquinhos no dia anterior. Estes jovens, sem perder de vista sua tradição e sua identidade caiçara, olham para o futuro buscando novas possibilidades que viabilizem sua permanência junto às suas raízes. Miram os mais velhos como professores de uma cultura que apesar das dificuldades ainda resiste à expansão das cidades e às barreiras legais. Lutam por aqueles que ainda vivem nas matas da Juréia. Sabem que também precisam conquistar o mundo que está para além da balsa que corta o Ribeira. E, principalmente, têm certeza de que seu lugar no mundo é ali mesmo, na Barra, entre a Juréia e o Ribeira, de frente para o mar.

{ AJJ – Associação de Jovens da Juréia }
Alameda dos Guaranis, 24, Barra do Ribeira – Iguape, SP

Leia aqui os textos produzidos pelo pessoal da AJJ para a Revista Frutos do Brasil:

MINHA PARTICIPAÇÃO NA AJJ

Por Paulo Cesar Franco

Nasci na Juréia, município de Iguape, litoral sul paulista. Em 1.986, quando foi decretada a Estação Ecológica da Juréia, deixamos nossa casa e nossa terra e viemos morar na Vila Nova onde resido atualmente.

Iniciei meus estudos primários ainda na Juréia, na casa de meu tio, que era nosso professor contratado pela prefeitura para nos alfabetizar.

Em 1.991, após ter deixado o estudo por algum tempo, conclui o primeiro grau na Escola Estadual, Elvira Silva, bairro do Icapara, onde também leciono atualmente. No ano seguinte, portanto em 1992, iniciei meus estudos no segundo, atualmente ensino médio, na Escola Agrícola onde me formei técnico em agropecuária no ano e 1.994.

Devido meu envolvimento com a Igreja Católica onde obtive experiência comunitária participando de pastorais, como a pastoral da juventude, decidi seguir a vida religiosa indo morar em Araraquara onde fiz o propedêutico na congregação do Verbo Divino.

No ano de 1996 fui morar em São Paulo onde comecei a faculdade de filosofia que teve seu término em 1998. Durante o período de faculdade desenvolvi trabalhos comunitários nas periferias da zona sul de São Paulo e com moradores de rua no centro da cidade onde aplicávamos a metodologia do MST para selecionar candidatos que estivessem aptos a retornar ao trabalho no campo.

Após sete anos na vida religiosa resolvi deixar o seminário e seguir a vida de leigo.

Portanto, Em 2003 retornei a minha terra natal, Iguape, indo lecionar na Cachoeira do Guilherme, comunidade remanescente de caiçara na Juréia, através do projeto denominado Escola Caiçara da jureia que resultou da parceria entre AJJ e NUPAUB-USP que tinha por objetivo resgatar e valorizar a Cultura Caiçara dentro de seu habitat natural praticando o desenvolvimento sustentável.

Apesar de o projeto ter mostrado resultados excelentes no que diz respeito à convivência dos educandos com a comunidade bem como na questão do aproveitamento dos conteúdos e na transmissão de conhecimentos acumulados pela comunidade, o projeto durou apenas dois anos com termino em 2004 por razões políticas.

No entanto, após deixar a Escola Caiçara da Juréia, segui trabalhando na Escola Estadual Sebastiana Muniz Paiva -Barra do Ribeira – Iguape – São Paulo em parceria com a Associação dos Jovens da Jureia no intuito de trazer a reflexão sobre a Cultura Caiçara para dentro de sala de aula e levar os educandos e professores para conhecer a AJJ e o potencial que tem a Juréia.

Em 2005 a AJJ foi contemplada pelo MINC através do Ponto de Cultura e atualmente é um Centro de Cultura Caiçara da Barra do Ribeira.

Desde então trabalho com a juventude tanto no Centro de Cultura como na escola estadual procurando refletir a questão da Cultura Caiçara nos seus aspectos históricos realçando a importância da valorização da identidade, da memória, dos saberes, da oralidade enfim, instigando a curiosidade para a pesquisa sobre os potencias existentes na comunidade, sobretudo na Juréia. Dessa forma é possível acreditar que a juventude possa encontrar uma forma de explorar sustentavelmente os recursos da comunidade sem precisar deixá-la.

Por fim, no ano passado, em 2008, a AJJ foi convidada a participar no projeto frutos do Brasil- Juventude em debate – ONG Aracati – São Paulo, onde participei juntamente com um jovem da Ajj- Marquinhos- para receber capacitação visando elaboração de um plano de mobilização da juventude.

Este plano de mobilização está sendo desenvolvido pela juventude e consiste na produção de um documentário cujo objetivo é mostrar a luta dos moradores da jureia para mudar lei da Estação Ecológica Juréia-Itatins para reserva de desenvolvimento sustentável de modo que possa garantir a dignidade das famílias e a preservação da Cultura Caiçara.

Por jovens da AJJ

Estamos trabalhando na produção de um documentário que mostra a discussão de como será o trabalho da gestão das comunidades para um modo de vida sustentável.

Esse trabalho foi proposto por nós jovens, junto com a UMJ (União dos Moradores da Juréia) e AJJ (Associação dos Jovens da Juréia), onde estaremos registrando as reuniões, fazendo entrevistas com os moradores locais visando comparar os dias atuais com as unidades de conservação e com o passado, antes da implantação das mesmas.

Para esse trabalho de gravação, estamos tendo um curso audiovisual com o Sr. Marcos Antônio, para minimizar os erros .

Após termos colhido esses materiais, vamos partir para o trabalho de edição dos vídeos e posteriormente publicá-los, para ser utilizado como material de estudo para os jovens da comunidade.

Como mostramos anteriormente, nosso trabalho visa mostrar como está sendo o processo de mudança de uma lei para beneficio das comunidades caiçaras e também como será o desfecho dessa luta, que já dura mais de vinte anos.

O nosso envolvimento e interesse nesse processo se dão por causa da nossa participação na Associação dos Jovens da Juréia, criada depois da implantação da Estação Ecológica Juréia Itatins que obrigava os moradores caiçaras a saírem de suas moradias. A AJJ apóia essas famílias para quem sabe conseguir mantê-las em sua região e conseguir com que as pessoas que saíram, possam regressar.

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2 comentários sobre “AJJ

  1. Fabio, Leonardo e pessoal da AJJ
    Parabéns pela matéria emocionante e esperançosa.
    Tenho uma ligação muito forte com a Juréia e fico muito feliz por saber que vocês estão realizando esse trabalho visando a sustentabilidade e preservação cultural.
    Acredito muito no potencial turístico de Iguape e região, e vocês são peças-chave para fazer isso acontecer com menos impacto ambiental e baseado no comércio justo e solidário. Importante que vocês desenhem o futuro que querem para a região e construam com suas próprias mãos, pois só vocês saberão o que é melhor para a comunidade.

  2. Valeu Fábio e todos da Aracati.

    Muito bom este material que vocês produziram. Em nome da AJJ agradeço pela oportunidade de falar um pouco da nossa luta pela preservação da cultura caiçara que a séculos vem preservandoa Mata Atlântica da Juréia. Este espaço permite que possamos contar uma parte de nossa história. Abraços, Paulinho

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