A Bruxa Tá Solta

Participação é contagioso
Ponto de Cultura A Bruxa Tá Solta
Rorainópolis, RR

Por Leonardo Trielli

3788842863_c6200a653e_oHá anos o INCRA cedeu um pedaço de terra para organizações da Vila Nova Colina, no município de Rorainópolis, RR. A área foi cedida para as organizações construírem sua sede. Se não se fizesse uso do terreno em 10 anos, a população perderia o direito de utilizá-lo. O tempo passou e, sem uma ação concreta, a população iria perder aquele espaço e a oportunidade de construir um local público.

Quando Nonato Chacon e a jovem Luzia Ribeiro receberam a tarefa de bolar um plano de mobilização durante o segundo encontro do projeto Frutos do Brasil, em Salvador, BA, não tiveram outra idéia senão a de fazer uso daquele espaço.

Quarta-feira, 1º de abril

Boa Vista, Roraima. Nunca imaginei que um dia eu viria pra cá. De madrugada, olho do avião, a cidade parece uma teia – irradia-se da Praça do Centro Cívico, onde estão os principais prédios administrativos do estado. Lembra um pouco o mapa de Paris. Descobri depois que é de propósito. Projetada na década de 30 pelo professor da Universidade Federal Fluminense e engenheiro civil, Alexandre Dernusson, o traçado foi inspirado na Paris antiga.

São quase três da manhã, mas a ansiedade me deixa acordado. No fim desta tarde, eu ainda farei umaviagem de ônibus até a Vila Nova Colina, um pedaço habitado por cerca de 2 mil pessoas no meio da Amazônia, no município de Rorainópolis.

Às nove e meia da manhã do dia 1º de abril, o meu celular toca. É Catarina Ribeiro, querida Catá. Eu a conheci no Fórum Nacional dos Pontos de Cultura, em Brasília, em novembro do ano passado. Mas já nos falávamos desde o começo do Projeto Frutos do Brasil, por e-mail. Em São Paulo, eu estava preocupado em como chegar até Nova Colina. No entanto, ela me garantiu que a partir do momento em que eu estivesse em Boa Vista, eu estava sob sua responsabilidade e que ela iria cuidar muito bem de mim.

Nonato Chacon nos encontrou no Hotel onde eu já fiz check-out. Chacon e Catarina são praticamente uma única pessoa: trabalham juntos há 18 anos. Um deles me confessou que não conseguiria mais trabalhar se não fosse em companhia do outro. Mas se engana quem pensa que esta seja uma relação de dependência emocional quase patológica. Eles simplesmente descobriram a força que o trabalho em conjunto pode ter. Tanto assim que, juntos, fizeram “A Bruxa” ser um dos grupos mais importantes da região, cultural e socialmente.

Depois de almoçarmos no Aipana Hotel, o mais tradicional da cidade, no coração de Boa Vista, em frente à sede do governo de Roraima, Palácio Senador Hélio Campos, nos dirigimos para a rádio Tropical FM, onde fui entrevistado pela jornalista Consuelo Oliveira para o seu programa 30 minutos.

Eu já esperava um dia quente. Já morei em cidade de praia, sei como é o verão. Mas ali a coisa é diferente (não durou dois minutos fora da gôndola uma barra de chocolate que eu comprei no mercado). Garrafa d’água na mochila é regra. Com a Téia Camargo, artista multimídia que eu conheci na casa da Catarina e que participa do projeto Interações Artísticas, fui caminhar pela capital roraimense e fiquei impressionado em ver como a cidade é bem organizada. Ali, como em Brasília, faixa de pedestre funciona como deveria funcionar em qualquer lugar do mundo.

3788842423_df020655a8_oO horizonte é fácil de achar. Não há arranha-céus – quem o arranha somos nós, com a mão, basta levantar o braço. O firmamento parece que encosta-se a mim. É imenso e azul. Parece chegar até o chão.

Conversando com a Catarina, eu percebo a capacidade mobilizadora do grupo. Eles estão há semanas se preparando para o evento do qual eu vim participar. O plano de mobilização da “Bruxa” tem um resultado muito concreto – e põe concreto nisso! Trata-se da construção da primeira fase de um complexo cultural, que irá abrigar o núcleo de Nova Colina do Ponto de Cultura A Bruxa tá Solta, o Sindicato dos Piscicultoresde Nova Colina e a Associação dos Agricultores Sustentáveis de Nova Colina.

Ainda nem chegamos em Rorainópolis e minha imaginação já monta as imagens do que pode ser a Vila, o Complexo Cultural e tudo o mais. Eu, Catarina, Mara e Teia embarcamos no ônibus às 18h30. Chegamos na Vila Nova Colina à 00h. Nos recebem, à beira da BR-174, a Luzia (a jovem que foi ao encontro de Salvador), o Iuri e o Ademar. Mesmo estando há quase uma semana na região Norte do país, eu ainda me admiro. “Eu estou na Amazônia!”

Quinta-feira, 2 de abril

3788842163_1f3a161e78_oUm temporal lá fora acorda todo mundo. Dormir em rede foi uma boa surpresa! Imaginei que iria acordar cheio de dor nas costas, mas não. Dormi feito uma pedra. Claro que o cansaço de todas essas viagens de avião e ônibus contribuiu para a profundidade do meu sono. Mas o silêncio e a paz de espírito que aquele lugar proporciona também deram uma grande contribuição. Apesar da chuva, não está frio. O banho, gelado, dá mais disposição. Agora é hora de tomar café na casa da Dona Lídia, a mãe da Luzia e da Adriana.

Macaxeira, tapioca, café preto, leite quente e suco. A mesa já está posta e a Dona Lídia me recebe. É a primeira vez que eu a vejo. As boas-vindas já estão dadas e a impressão que dá é a de que eu não estou lá pela primeira vez. Parece que eu volto a um lugar do qual eu sempre fiz parte. Atribuo esta sensação a uma única causa: hospitalidade e bondade, dela, do seu Waldemar, o seu marido, e das suas jovens filhas, Luzia e Adriana.

A casa é no terreno vizinho ao do lugar onde estamos hospedados – uma casa alugada especialmente para abrigar o povo que virá de fora para a inauguração do Complexo Cultural. A construção em alvenaria – grande parte das casas de Nova Colina é feitas em madeira – abriga a Lanchonete da Lídia, aberta pela frente por duas grandes portas de aço, o lar da família Ribeiro (Dona Lídia, Seu Waldemar, Luzia e Adriana) e, numa porta ao lado da lanchonete, o Núcleo de Nova Colina do Ponto de Cultura A Bruxa tá Solta. Aliás, esta história é uma mostra do comprometimento do seu Waldemar com a comunidade – ele cedeu um espaço da própria casa para o Ponto de Cultura. Ele não cobra aluguel para isto.

O Complexo Cultural fica a aproximadamente um quilômetro dali. Caminhamos pelas ruas de terra jogando conversa fora. Quando entramos na vicinal do Complexo, avistamos um caminhão e alguns homens erguendo um poste, bem na frente do terreno. É a companhia de energia elétrica. A prefeitura instalou rede elétrica nesta região, senão o Complexo não teria energia. E os moradores do entorno que não possuíam ligação de energia acabaram se beneficiando. A Catarina me mostra também uma caixa d’água, que também foi instalada no local para o complexo e, da mesma forma, beneficiou a população.

O Complexo está erguido. É um embrião. Esta primeira etapa é uma tenda de alvenaria e madeira, que servirá de palco para apresentações culturais e reuniões e assembléias da população. Sob o telhado, o chão ainda está na terra. Falta pouco mais de um dia para a inauguração e eu penso se realmente isso vai dar tempo de ficar pronto. Não conheço a força que tem o pessoal de Nova Colina. Mulheres, homens, crianças, jovens, ninguém ali está parado. Todos se ocupam de algo. Quem tem experiência em construção, está misturando o cimento. Quem não tem, limpa o terreno com facão, ancinho e carrinho de mão. Eu me aventuro em dar uma força, mas bastam cinco minutos de trabalho duro pra que eu perca o fôlego e sue em bicas.

Uma bela mulher com traços indígenas conversa animadamente com Catarina. É Conceição, esposa do presidente da Associação dos Agricultores Sustentáveis de Nova Colina, o Domingos. Ela também tomou partido na mobilização da comunidade. Domingos, Seu Raimundo e o vereador Pinto Loco se destacam. Eles são líderes da turma e, como numa peça ensaiada, orquestram todo o pessoal com uma invejável harmonia. E quem pensa que “coordenar” é mandar e cobrar resultados está enganado. Os três estão lá todos os dias, também com a mão na massa, junto com todo mundo.

A Luzia me contou depois. No dia marcado para a primeira limpeza do terreno, quando o local não passava de um monte de mato alto, não havia ninguém. Ela chegou cedo, junto com o Pablo, o Iuri e a Adriana. O desespero quase tomou conta.

– Não vai dar, Luzia. Ninguém veio. Vamos embora!

Já estavam voltando quando ouviram, vindo do meio do terreno, entre as folhas altas do mato, o barulho de um facão podando maços de plantas. Era Pinto Loco. Sozinho, ele havia aberto um enorme clarão no meio do terreno. Este fato fez reacender nos quatro a força e a vontade de manter “o rumo do barco”. Mais curioso foi ver como esta força é contagiosa. Em poucas horas, depois de tomarem ciência da situação, dezenas de pessoas aderiram ao movimento, e ajudaram a limpar o terreno.

Tão emocionante quanto ouvir a história é fazer parte disso – mesmo eu tendo suado bem menos, ou ter chegado já na reta final. Todos fazem questão de me incluir neste bolo. Agora que a tarde começa a cair e a vontade de tomar um café fresco se instala, caminhamos de volta à casa da Dona Lídia. Por lá o café sai a toda hora. Junto com o café preto, pupunha cozida na hora – não é o palmito, mas o fruto que dá nessa palmeira. O dia termina na única lan house da Vila. Como chovia, o acesso estava muito complicado. Deu pra pegar poucos e-mails e responder menos. A rede me espera – não a rede mundial, a rede onde eu durmo. E lá se vai mais um dia em Roraima.

Sábado, 04 de abril

3788844751_df6c3eda99_oNa sexta-feira choveu muito e isto nos preocupou. O tempo poderia atrapalhar a inauguração do complexo. Mas hoje apenas o sol deu o ar da graça. E a terra úmida da chuva do dia anterior deixou a temperatura mais amena. O tempo, afinal, estava perfeito para a festa. Ontem, o dia foi praticamente igual à quinta-feira – exceto pelo happy hour que nós nos demos ao luxo de fazer no fim do dia. Também consegui aproveitar a lua que apareceu enorme no meio da noite, bem perto do horizonte. Mas, aquela tranqüilidade da noite anterior hoje dá lugar à agitação da ansiedade pela inauguração.

A Dona Lídia está acordada desde quatro da manhã, preparando a merenda que será servida após a cerimônia. Ela não está cobrando nada por isto. Faz porque quer. E quer muito. Quer, como todas as pessoas que ajudaram a erguer o complexo, que as suas filhas tenham um espaço comunitário. Quer porque é cidadã que planta pois sabe que vai colher mais tarde. E hoje é o dia da colheita da primeira safra.

O Chacon está gripado, por isto, só chegou ontem à noite. Junto com ele chegou também o Éder Sobral, ator do grupo. Quando cheguei ao Complexo Cultural, já havia bastante gente aguardando o início da cerimônia. Além de Nova Colina, o Ponto de Cultura “A Bruxa tá Solta” também mantém outros núcleos, em duas vilas de Rorainópolis – Martins Pereira e Equador. Todos os jovens dos dois núcleos já chegaram e estão ajudando a ajeitar as cadeiras e mesas emprestadas pela escola pública local e a pendurar o banner produzido especialmente para a ocasião.

Pouco mais de nove da manhã e o Chacon anuncia a inauguração. Os jovens Adriana e Pablo são os mestres de cerimônia. Eles dão início ao evento chamando as pessoas que comporão a mesa, a saber: Domingos Ferreira, presidente da Associação dos Agricultores Sustentáveis de Nova Colina; Raimundo Pinheiro, presidente do Sindicato dos Piscicultores de Nova Colina; Catarina Ribeiro, Coordenadora do Ponto de Cultura “A Bruxa ta Solta”; vereador Joarismar Pinto Louco, representante da Câmara Municipal de Rorainópolis; Valdecir Cardoso, coordenador do Colegiado do Território de Cidadania Sul de Roraima;Márcio Sergino, Presidente da Federação de Teatro de Roraima, Juliano Mello, do campus Novo Paraíso IFRR; Ronildo Viana, Superintendente de Aqüicultura e Pesca em Roraima e da SEAP – Secretaria Especial da Presidência da República; Rose Ferreira, representante da Superintendência do Incra-RR; James Barros, prefeito do unicípio de Rorainópolis; e eu.

Antes de começarem os discursos, os jovens mestres de cerimônia chamaram ao palco o Seu Vili, de 78 anos, que cantou e tocou modas de sanfona para o público. Também chamaram a jovem Micileide Monteiro, do núcleo Equador, que leu um poema de sua própria autoria, que sintetiza a história da construção do complexo cultural e a importância deste aparelho público para os cidadãos de Nova Colina.

Discursos são discursos. Todos o fizeram – eu inclusive. Não que tenham sido irrelevantes, mas é de se esperar que as palavras fossem todas de apoio ao que os jovens de Nova Colina, junto com a sociedade, realizaram juntos. No entanto, uma das frases que me emocionou fora de Ronildo Viana, citando o verso de um poema de amor de autoria de Assis Pereira do Acre: “Duas pessoas não só se amam quando se beijam mas quando, juntas, olham a mesma direção.”

3788844533_a321d532f5_oCom o fim da cerimônia, todo mundo foi se servir das delícias da Dona Lídia. Eu e a Luzia ainda fomos dar uma entrevista para o repórter da TV Rede Amazônica, filiada da Rede Globo, que fez uma reportagem sobre o evento.

Após a comilança, recebemos um convite que, para mim, foi um dos melhores já recebidos. O Domingos foi nos buscar no seu “espanta-cão” (o chassi de um caminhão que ele comprou só para poder ajudar na construção do Complexo) para o pessoal ir dar um mergulho no seu quintal. O “quintal” da casa do Domingos e da Conceição, é um pedaço intocado da Amazônia. E, depois de um verdadeirorally pelas vicinais, com direito à lama na cara e tudo, fomos agraciados com um mergulho no Rio Tentativa, um afluente do Amazonas que passa ali pelo assentamento onde o casal vive. Foi a despedida perfeita. Afinal, em Manaus não tive tempo nem de ver a cidade, quiçá me banhar em algum pedaço da maior bacia fluvial do mundo. Amanhã volto pra São Paulo renovado, e com uma experiência na bagagem que será impossível reviver. E, claro, com a alma bem mais elevada.

Não queria revelar. Mas, sim, algumas lágrimas de emoção apareceram no meu rosto. Uma verdadeira revolução na cidade. O que eles aprenderam foi muito mais do que “querer é poder”. Ali se mostrou a importância de uma sociedade civil mobilizada em prol da comunidade. Ali se provou que não é apenas o Estado que tem aval para melhorar a vida do cidadão. O Complexo Cultural das Entidades de Nova Colina é a mudança de paradigma dentro de uma comunidade esquecida inclusive pelo governo local. A Vila Nova Colina mudou para melhor. E graças, somente e tão somente, à vontade própria de seus homens e mulheres.

{ Grupo de Teatro a Bruxa Tá Solta }
Rua Jerusalém s/n, Vl do Equador – Rorainópolis, RR


Leia aqui os textos produzidos pelo pessoal da Bruxa Tá Solta para a Revista Frutos do Brasil:

Por Luzia Ribeiro

Ver o complexo inaugurando me remeteu vários sentimentos, pois esse era um sonho que vinha sendo sonhado coletivamente há muito tempo, por muitas pessoas, que juntando suas forças o fizeram realidade.

Para mim, mais importante do que ver o Complexo Cultural sendo inaugurado foi participar de todo o processo, foi ver como as pessoas faziam um trabalho voluntário com tanta alegria, foi ver as soluções aparecendo diante de problemas que pareciam obstáculos impossíveis de serem ultrapassados.

É diante de resultados como este que eu tenho orgulho de onde moro, que tenho orgulho das pessoas que, sem esperar resultado, se entregam e se ajudam. A comunidade teve um papel importantíssimo nessa construção, pois foi ela quem fez tudo. Cada prego martelado ou tijolo colocado tem as impressões de um morador.

Conseguir juntar políticos, comerciantes, entidades religiosas e moradores locais em prol de um resultado não é uma tarefa fácil. Mas a gente conseguiu, e podemos dizer com orgulho que com a ajuda de todos nós, estamos construindo um espaço onde cultura poderá interagir com religião, onde política e lazer estarão juntos, onde tanto os jovens como os mais velhos estarão aprendendo e ensinando.

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